Entrevista com Orlando Chirino
“A unidade dos trabalhadores, a autonomia
sindical e a relação dos trabalhadores com o PSUV”

 

Na terça feira 31 de Julho, o jornal El Mundo publicou uma entrevista com o deputado Oswaldo Vera, que também é coordenador nacional da União Nacional de Trabalhadores. Nas suas declarações o deputado e sindicalista, considerado porta-voz do governo Chávez, expressou suas opiniões sobre a situação atual e as perspectivas do movimento sindical venezuelano. Pela importância dos temas, a Radio Los Centauros aproveitou a visita do dirigente nacional da UNT Orlando Chirino em Barinas. Ele esteve nesta cidade para colocar em pratica os acordos de reunificação da UNT fechados em 26/07 em Caracas, entre a sua corrente – a C-CURA e outras quatro correntes da UNT.

LC: Que importância da às declarações do deputado e sindicalista Oswaldo Vera?


O.Ch: Independente que muitos não reconhecemos Oswaldo Vera como dirigente dos trabalhadores é verdade que é uma voz autorizada do governo. Não por acaso o presidente Chávez o ratificou como candidato a deputado em duas ocasiões e lembremos que foi porta-voz dos “trabalhadores” (pese a não ter sido nomeado por ninguém) no ato de lançamento do projeto do PSUV realizado em 24 de Março no Teatro Teresa Carrenho. Nesse sentido, a entrevista tem importância porque as opiniões de Vera refletem a visão do governo sobre o ato de unidade de 26 de Julho, assim como respeito a três temas muito complexos, como são a unidade dos trabalhadores, a autonomia sindical e a relação dos trabalhadores com o PSUV.

LC: Comecemos pelo ato de reunificação... Qual é teu balanço?


O.Ch: Foi um fato público e notório que conseguiu fazer renascer a expectativa do milhão e meio de filiados da UNT. Quase mil dirigentes de todos os cantos do país atenderam o chamado feito pelas cinco correntes que, em uma demonstração de maturidade, acordamos dar o pontapé inicial para reorganizar a UNT, fortalecer suas estruturas regionais e nacionais e encarar de forma democrática e transparente o processo eleitoral para legitimar os dirigentes da Central.
Nosso balanço deste evento é muito positivo. É um novo triunfo das bases que exigem respeito à decisão majoritária do III° Congresso realizado em maio de 2006 e uma contundente derrota às políticas divisionistas que impulsionam as correntes governistas. Penso que as declarações de Vera são a resposta “oficial” contra os esforços de reunificação da Central.

LC: Por que Oswaldo Vera, que tu consideras porta-voz do governo, se opõe à unidade?


 O.Ch: à nova burocracia sindical nascida de coração do movimento liderado pelo presidente Chávez, não lhe interessa a unidade nas fileiras dos trabalhadores. A FBT (hoje FSBT) sempre quis impor sua particular visão da unidade, mas nunca o conseguiu.  Lembremos que nas eleições sindicais de outubro de 2001, a FBT, corrente na qual eu militava, teve todas as condições para derrotar a CTV pelega, nas não conseguiu porque os dirigentes em aquela oportunidade impuseram seus “critérios de unidade” tentando passar com que era suficiente o poder de Chávez para ganhar as eleições.
Os fatos demonstraram que não era suficiente. Pára derrotar a burocracia sindical da quarta república era preciso tem um programa classista, democrático e autônomo, realizar um forte trabalho de base, para poder desmontar à poderosa maquina sindical fraudulenta que o bipartidarismo edificou durante 40 anos, a qual tinha ademais o respaldo de todos os empresários do país, das multinacionais e contava com o apoio da mídia.
A visão dos dirigentes da FBT que perdura até hoje, se baseia no aproveitamento do prestigio do presidente Chávez; no controle do aparato de governo; nas amizades; no controle de recursos milionários para viajar e fazer lobby nas regiões; na imposição dos candidatos nos Estados. Onde seus candidatos não são reconhecidos pelos trabalhadores, como em Carabobo, onde a maioria dos setores classistas apoiava meu nome, eles preferiram dividir a votação, perdendo a oportunidade de derrotar os burocratas de AD e COPEI nas eleições. Pese a isso, minha candidatura quase triplicou os votos de seus candidatos.
Em 2005 em nome da unidade, dividiram a FBT ao expulsar Marcela Maspero e a mim, sendo que até hoje não explicaram o porquê desta separação.  O que eu entendo, é que para eles é inaceitável que nos trabalhando desde as bases e construindo a UNT tenhamos conquistado o afeto e o apoio majoritário nas bases.
Depois veio o II Congresso da UNT.  A FBT não fez nada para organizar os trabalhadores, não foram à plenária nacional de outubro de 2005 quando as bases se levantaram exigindo eleições e depois veio a sua participação ruim nas deliberações do II Congresso.
Pela sua pobre aceitação nas bases fugiram do Congresso. São tão medíocres e tão pouco reconhecidos pelos trabalhadores, que nem sequer na plenária de sua corrente (realizada há pouco mais de três meses) foram capazes de impor as teses de que havia que desconhecer à UNT e construir outra central.

LC: porque considera a autonomia um princípio do movimento sindical?


OCH: Simples. A UNT nasceu após os trabalhadores concluir a experiência com a CTV compreendendo que essa Central ao participar do golpe de abril de 2002 e da posterior sabotagem já não tinha nenhuma independência política, não tinha nenhuma autonomia porque tinha se convertido em agente e apêndice dos partidos AD e COPEI, da Fedecâmaras e era submissa às ordens de Washington. [...]
Se os trabalhadores fizeram essa experiência e compreenderam que para avançar precisam de plena autonomia, com quais argumentos vamos dizer agora que suas decisões devem estar subordinadas às necessidades do governo e do Estado, que, como afirma o Presidente Chávez, continua sendo capitalista?Infelizmente, Oswaldo Vera, o Ministro de Trabalho e o Presidente Chávez insistem em atacar a autonomia sindical.
Eles sabem que a autonomia sindical é uma importante proteção para os direitos dos trabalhadores e por isso pretendem desconhecê-la. Pretendem que os trabalhadores aceitem passivamente que o governo desconhece o direito à negociação do contrato coletivo.  Eles pretendem que os trabalhadores não denunciem não se mobilizem ou não lutem, por exemplo, no setor petroleiro, enquanto que o Ministro de Trabalho junto com a burocracia da V República e os golpistas da IV República negociam e entregam as mais importantes conquistas obtidas pelos petroleiros.
De acordo com eles, os trabalhadores dos ministérios, os do Mercal ou do plano Bairro Adentro não tem direito a se organizar sindicalmente nem a reclamar negociação coletiva. A FSBT não quer que defendamos uma nova lei orgânica do trabalho que reflita a nova correlação de forças, nem a regulamentação da lei de seguridade social que são anos que está nos arquivos... Querem que os trabalhadores sejamos servis como eles. Eles não querem que sejam realizadas as eleições na UNT porque sabem que os trabalhadores vão preferir aos que lutam em defesa dos seus direitos. Tem me acusado de contra revolucionário e outras falsas acusações; mas nunca poderão dizer que renunciei a defender os direitos dos trabalhadores em troca de satisfazer as necessidades do governo ou dos empresários como eles fazem. [...]
Temos a consciência limpa e com toda autoridade política continuamos afirmando que Oswaldo Vera, José Rivero e o Presidente Chávez estão errados se acreditam que o movimento sindical vai renunciar a autonomia.

LC: Qual a relação destas polemicas com o PSUV?


OCH: Oswaldo Vera fala como dirigente do PSUV. A conclusão que tiro é que os trabalhadores que entrem no PSUV serão chamados a desconhecer ou renunciar à UNT como propõe Oswaldo Vera. Aspiro a que os dirigentes sindicais e trabalhadores conseqüentes que ali estão denunciem esta situação e desautorizem seu dirigente. E se a direção desse partido não aceita, que se retirem dele, porque é contra a mais importante ferramenta de luta construída pelos trabalhadores no processo revolucionário.

O segundo aspecto tem a ver com a estratégia que devemos ter os trabalhadores. Nosso norte é o socialismo, tendo como protagonista central a classe trabalhadora organizada sindical e politicamente. Para Oswaldo Vera e para o governo, os trabalhadores devem estar subordinados às decisões de um estado e de um governo que ainda não rompeu com a herança da IV República.

Em terceiro lugar, que tipo de partido é o PSUV, donde os principais dirigentes sem consultar com as bases insistem que a UNT não representa os trabalhadores e deve ser liquidada. Esses métodos autoritários são incompatíveis com os critérios de democracia sindical que reivindicamos os autênticos revolucionários socialistas.

Em quarto lugar, não cabem os trabalhadores honestos e socialistas em um partido que está dirigido por desonestos e ladrões como é o caso de Franklyn Roldon, hoje reivindicado por Oswaldo Vera. Vera confessou que prefere se aliar com estelionatários antes que lutar por unificar à UNT. Que se pode esperar da união com um ladrão de colarinho branco, que se aproprio de 3 bilhões de bolívares descontados, sem consultar, do salário dos trabalhadores e agora tem a cara de pau de dizer que não existem recursos financeiros para convocar as eleições em Fentrasep.
Oswaldo Vera e o Ministro de Trabalho promovem reuniões com os patrões, e os convidam a entrar no PSUV e lhes outorgam todo tipo de garantias para que possam violar os direitos dos trabalhadores. É o caso de Sanitários Maracay, onde facilitam o trabalho dos patrões golpistas Branger Pocaterra para que derrotem a heróica luta de mais de quatro anos que levam os valorosos trabalhadores de Sanitários Maracay. A FSBT defende a propriedade privada e aos proprietários privados que hoje se filiam no PSUV. Com esses exploradores nem com nenhum tipo de capitalistas os trabalhadores podemos conviver. Somos inimigos de classe irreconciliáveis.
Uma prova é que o governo nacional iniciou o Programa Petrocasa, e construirá na primeira fase 18 mil moradias. Mas já acordou em comprar os sanitários com provedores privados capitalistas e não dos trabalhadores de Sanitários Maracay que tem a empresa sob controle operário e produzem os produtos melhores e mais econômicos. Com isto fica evidente que existem dois projetos enfrentados: o do “socialismo” para os empresários que impulsionam os funcionários do governo e o socialismo dos trabalhadores que defendem os operários de Sanitários Maracay. Também, Vera e a FSBT são os que avalizam a persecução contra os servidores públicos que não se inscrevem no PSUV.
Por isso, tirando conclusões de tudo o que está acontecendo, chegamos à conclusão que o lugar dos trabalhadores não é o PSUV, e que temos que construir nosso próprio espaço, nosso próprio partido dos trabalhadores. Um partido que defenda a autonomia sindical, que mobilize os trabalhadores em defesa de seus direitos, que rompa com os grandes empresários e multinacionais, que lute pela expropriação e a socialização dos médios de produção, das terras, do grande comércio e do sistema financeiro. Isso é socialismo, o resto e tentar humanizar o sistema capitalista. Não queremos um partido que só viva criticando o governo, queremos um partido que lute pelo poder e pelo governo dos trabalhadores. Essa é a essência política desta discussão.
Acho que o comportamento deste “dirigente” tem a ver com novos fenômenos sociais. Oswaldo Vera, os dirigentes da FSBT e os altos funcionários do governo não refletem aos trabalhadores. Eles refletem a setores de classe média, aos novos ricos, à nova burocracia surgida do processo, às alianças com grupos de empresários supostamente para desenvolver o país, e refletem aos corruptos que desde os altos cargos do poder se enriquecem a custa dos direitos do povo trabalhador das cidades e do campo. Por esta razão, os ministros que impulsionam a reestruturação nas instituições do Estado, arremetem contra os sindicatos e fazem todo tipo de acusações com o objetivo de impedir que os dirigentes honestos e revolucionários questionem estas medidas antidemocráticas.
Por isso é necessário construir um partido de trabalhadores, que os reflita, que lute por eles, que mobilize os trabalhadores e que lute por um governo dos próprios trabalhadores, que representamos 70% da população. Não se trata de falar em “partido revolucionário, para depois defender a propriedade privada, as empresas mistas, abrem as portas para as multinacionais chinesas, indianas, russas, espanholas, iranianas, etc. pára explorar nossos recursos naturais e super explorar a força de trabalho.
Esta foi a grande conclusão do Congresso Regional da UNT no Estado de Aragua, que votou uma resolução chamando os trabalhadores para construir a sua própria ferramenta política independente dos exploradores, dos capitalistas, dos burocratas, dos banqueiros, dos latifundiários e dos corruptos.
Não por acaso Oswaldo Vera e os principais dirigentes da FSBT em todos estes anos que levam ocupando vagas de deputados ou cargos de funcionários do governo, não foram nem uma vez para as portas das fábricas levarem apoio e solidariedade aos trabalhadores em luta. Simplesmente, esta é a raiz social do problema, eles não refletem à classe trabalhadora nem ao movimento sindical organizado. Por isso, histórica e estrategicamente não tem como tarefa a luta pelo socialismo científico, mas a sua versão pequeno burguesa do socialismo denunciada oportunamente por Marx, Engels, Lênin, Liebnecht, Rosa Luxemburgo e Trotsky. 

Venezuela - 03/08/2007

 

 

 

 

 

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