Explodiu a “Bolha”
Lula fez o “dever de casa” dos banqueiros
Por Silvia Santos (Executiva Nacional do PSOL)

 

O Presidente Lula e seus ministros insistem em declarar que a crise das bolsas é “problema dos EUA”, que aqui não devemos nos preocupar “porque fizemos bem o dever de casa”. Mas não podemos confiar nas palavras do presidente. Se a crise do México, Rússia ou Argentina repercutiram no mundo, imaginemos acontecendo no coração do imperialismo: os Estados Unidos.           
Henrique Meirelles, presidente do BC, afirmou que se uma locomotiva da economia mundial (os EUA) está fraca, temos outra que é a China que puxará a economia. Mas não é assim. A maioria das corporações imperialistas está instalada na China, aproveitando-se do baixo preço da mão de obra. Se a economia dos EUA aprofunda a desaceleração ou entra em recessão, suas filiais na China venderão menos, a crise se expandira com maior força e as companhias americanas vão perder mais ainda, visto que seus produtos são feitos na China para os próprios norte-americanos. “Hoje metade das importações americanas supostamente chinesas são produção off shore das empresas americanas para o mercado americano” diz Paul Roberts, ex-assessor do Tesouro no governo Reagan. 

A crise não é nova
Quem não lembra da crise das empresas ponto.com? Ou da gigantesca Enron que maquiava balanços para ocultar perdas? Com intervalo de alguns anos, o mundo financeiro sofre um terremoto com diferente intensidade e conseqüências.
Os últimos 5 anos foram de crescimento da economia mundial. Os EUA pós 11/09 decidiram não só invadir o Iraque para controlar militar, política e economicamente aquela região: decidiram também inundar o planeta de dólares para sair da recessão e avançar na sua política colonizadora. Para isso, baixaram os impostos aos ricos; baratearam o crédito e investiram pesadamente na indústria armamentista enquanto crescia a população sem assistência social nem plano saúde. Na potência mais poderosa do planeta continua havendo 14 milhões de ilegais perseguidos e 40 milhões de pobres.
China, Índia, Venezuela, Rússia e Argentina, cresceram a ritmos vertiginosos. As corporações norte-americanas produziam cada vez mais em suas empresas instaladas na China, que precisavam do petróleo do Oriente Médio, da Venezuela ou da Rússia; do cobre chileno, do ferro gusa brasileiro ou da soja Argentina para sustentar seu crescimento. Com crédito farto os financistas dos EUA ajudavam a concretizar fusões e aquisições mundo afora, além da compra de títulos, derivativos, bônus, ações, etc. O apetite de lucro chegou ao crédito imobiliário. A oferta de dinheiro chegou para aqueles com grandes possibilidades de não poder pagar. Os juros aumentaram, o ritmo de venda das casas caiu, e as residências perderam valor. Milhares de mutuários não puderam pagar as prestações. A crise se espalhou pelo mundo.

É só uma ‘gripe’ que o mercado corrige?

Os “mercados” não são outra coisa que os banqueiros e os especuladores, protegidos pelos governos capitalistas, em primeiro lugar o dos EUA.  Não se trata de uma crise passageira, é uma crise estrutural da economia capitalista. Mais uma vez, quem veio a salvar o sistema financeiro foi o Estado através de seus Bancos Centrais (dos EUA e Europa) injetando mais de 300 bilhões de dólares em poucos dias. Mais empréstimos ao capital financeiro para que continue apostando no cassino da especulação.
Porém, tal injeção pode adiar uma crise maior da economia mundial ou uma recessão, mas não curar. O sistema capitalista imperialista para lucrar, precisa destruir competidores, produzir guerras, mortes e miséria. Para recuperar lucros busca derrotar o movimento de massas para explorá-lo ainda mais. Militarmente, como fez no Iraque, e através dos planos neoliberais, procurando o lucro na especulação, criando as “bolhas” que a cada tanto explodem, deixando mortos e feridos.
No entanto, a derrota dos EUA no Iraque jogou por terra a agenda imperialista para aquela região, impedindo uma estabilização global dos seus planos. No sentido contrário, a acelerada restauração capitalista por parte da burocracia e da burguesia chinesa, ajuda a sustentar a economia mundial dominada pelo imperialismo: possibilita às multinacionais a exploração da mão de obra barata, e como principal detentor de títulos do tesouro norte-americano, se converte no principal credor e  sustento fundamental dos déficits fiscal e comercial dos EUA.

Alguns ganham e muitos perdem

Os “mercados” arriscavam porque ganhavam muito. Quando alguns decidiram vender seus títulos com o preço lá em cima, o castelo desabou. Bancos, financeiras ou fundos perderam importantes economias pertencentes a um setor de grandes investidores e a milhões de médios ou pequenos poupadores. Na base da pirâmide, milhares ou quiçá milhões, perderam ou perderão suas casas nos EUA, começando pelos imigrantes e ilegais. Também crescerão as demissões: nos EUA em 2007 foram dispensadas 88 mil pessoas; 40% estavam relacionadas com o mercado de hipotecas. 
Pese ao nosso país ter diversificado suas exportações, 24% das vendas brasileiras vão para os EUA e China, sem contar que se estes dois países consomem menos, a queda se alastrará, com baixa dos preços das commodities e um crescimento menor do conjunto da economia mundial.

Lula fez o dever passado pelos banqueiros

Segundo a Folha de SP, no primeiro semestre de 2007, os cem maiores lucros das empresas com ações na Bovespa foi de R$ 68,1 bilhões: triplicou em relação a 1999.A partir desta crise, no Brasil em 20 dias os fundos de investimento perderam cerca de R$ 8,7 bilhões, visto que a queda nas bolsas levou a um forte movimento de retiradas. De acordo com um Executivo da Corretora NGO, “nos últimos dias, ao ficarem sem dinheiro nos EUA, os investidores vieram aqui e limparam a prateleira”; e fizeram remessas para exterior o que elevou o dólar.
O dever de casa que Lula fez bem, foi passado pelos banqueiros! Aumentou o superávit primário para pagar juros aos agiotas e para fazer as famosas reservas cambiais, enchendo o BC de dólares para que os especuladores pudessem levar quando viesse a crise.
Começaram as recomendações dos mercados para “manter a estabilidade” o que significa apertar o cinto dos trabalhadores e do povo para garantir seu quinhão. Setores do governo já admitem um superávit primário ainda maior, o que levaria a aumentar o arrocho e o ajuste fiscal e acelerar as reformas como a da Previdência.
Por isso dizemos: nenhuma confiança no governo Lula e seus ministros! Não vamos pagar pela crise! Frente ao quadro de falência da saúde, da segurança e da educação pública precisamos de mais e melhores investimentos! Precisamos de mais empregos, salários e previdência pública. Para começar, é preciso acabar com o falso superávit e suspender o pagamento dos juros das dívidas, assim como realizar uma imediata auditoria; taxar as grandes fortunas e controlar a entrada e saída de capitais, com fortes taxações e barreiras à especulação.

 

 

 

 

 

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