QUE
FAZER?
As Questões Palpitantes
do Nosso Movimento
V.I. LÊNIN
Editora Hucitec - São Paulo, 1979
A luta interior dá força e vitalidade ao
partido; a melhor prova da fraqueza de um partido é sua posição difusa e a
extinção de fronteiras nitidamente traçadas; o Partido reforça-se
depurando-se...
(trecho de uma carta de
Lassalle a Marx, de 24 de junho de 1852)
APRESENTAÇÃO
A
publicação de Que Fazer? no Brasil constitui um acontecimento de grande
significação política, malgrado as presentes condições nas quais vivemos e a
debilidade crônica do nosso movimento socialista. Está fora de dúvida que essa
não é a maior obra de Lênin. Contudo, ela caracteriza o momento no qual o
leninismo se revela em seus componentes essenciais: em nove anos de experiência,
de lutas constantes, de perseguições e de enorme fermentação criadora, um jovem
publicista da ala esquerda da social-democracia russa punha-se à frente da
vanguarda teórica desse partido. Apenas nove anos? O que se pode realizar
quando a história se move para a frente e o pensamento revolucionário é exposto
a todas as tensões de forças contrárias, da mais odiosa opressão de um regime
autocrático cruel e de sua terrível repressão policial às inquietações da
intelligentsia, dos estudantes, dos radicais de uma burguesia impotente e, em
particular, das pressões crescentes das massas populares, do campo e da cidade!
Em suma, quando o pensamento revolucionário aceita suas tarefas, as enfrenta
com tenacidade, esclarecimento e coragem, procurando avançar sempre para a frente, relacionando meios e
fins que podem transformar a “oportunidade histórica" em história real.
Haveria muito que debater sobre este pequeno livro e seu significado no
movimento socialista revolucionário. Não obstante, seria fora de propósito
ornamentar Que Fazer? com qualquer pretenso comentário erudito. Os seus
leitores podem ressentir-se da precisão de Marx, por exemplo, nos comentários
rigorosos à Crítica do Programa de Gotha. No entanto, Que Fazer? introduz no
marxismo uma nova dimensão política. Na verdade, ele é uma resultante de um acidentado,
heróico e construtivo labor coletivo: o que várias tendências do populismo, do
radicalismo e do socialismo criaram na Rússia dos meados do século XIX à sua
última década. Uma experiência filtrada por Lênin e amadurecida por sua
penetrante acuidade à contribuição do movimento socialista europeu,
especialmente na Alemanha, França e Inglaterra. Não se pode ignorar figuras
como Plekhânov, Axerold e Zasulítich (além de outros companheiros do ISKRA e da
ala esquerda do RO.S.D.R.), cuja produção teórica e visão dos problemas
práticos do marxismo na Rússia alimentaram a aprendizagem e os primeiros
tirocínios de Lênin. Todavia, ele os suplanta com uma rapidez incrível. Que
Fazer? marca uma nova etapa, que deixa tudo para trás. De sua edição em diante,
a Rússia não seria o cenário da transmutação pura e simples do marxismo em
movimento revolucionário triunfante. Nascia o marxismo-leninismo como teoria
revolucionária e como prática revolucionária organizada. A própria Europa
ficava para trás, apesar da importância da II Internacional e dos seus grandes
teóricos, e da densidade do movimento operário europeu.
Neste
breve comentário, gostaria de concentrar-me em três questões mais importantes
para os leitores brasileiros no momento atual. A primeira, diz respeito ao
próprio Lênin: porque ele já estava politicamente qualificado para escrever uma
obra tão simples mas de conseqüências tão profundas e permanentes? A segunda,
impõe-se como decorrência: o que representa a concepção do marxismo que Que
Fazer? propõe? A terceira, vincula-se ao aqui e ao agora: o que um livro como
esse testemunha quanto à nossa própria imaturidade e impotência políticas no
Brasil e na América Latina?
Quanto ao primeiro tema, se Lênin era um "cérebro político"
privilegiado (descrito por Trotsky como o único estrategista da revolução
bolchevique), ele também recebe uma herança política privilegiada e viveu em um
momento histórico privilegiado. Não penso em simplificar as coisas, para chegar
a uma redução determinista do papel do herói na História. Isso seria indigno de
qualquer comentário mais ou menos lúcido do significado de Que Fazer?; e, em
particular, entraria em conflito com o modo pelo qual Lênin se via como um "publicista
de partido". Um livro escrito entre o outono de 1901 e fevereiro de 1902,
publicado em março de 1902 - mas que se propunha os problemas centrais da
teoria e da prática revolucionárias na Rússia e na Europa - transcende a uma
datação localizada. Ele responde a muitas questões contraditórias e a grandeza
criadora de Lênin aparece na propriedade das perguntas, que formula, e na
qualidade das respostas (ou das soluções), que apresenta (numa linguagem que é
sempre simples, direta, embora marcadamente irônica e mordaz: Lênin não se
propunha uma "leitura" de Marx - o que ele queria era descobrir os
meios mais eficazes de converter uma, revolução potencial, bastante forte para
deixar a vanguarda teórica deslocada pelas exigências e alguns avanços das
massas populares, no ponto de partida da desagregação do regime tzarista e de
uma revolução permanente na qual o marxismo se impusesse como uma cunha
irremovível, capaz de suplantar o liberalismo e o radicalismo burgueses, o
populismo, o socialismo moderado ou reformista, o terrorismo etc., e de gerar
uma revolução proletária vitoriosa).Quantos revolucionários afirmaram (ou
afirmam) que precisam sonhar e exigem a liberdade de sonhar? 0 importante é que
o sonho, não estava longe da realidade. Ao contrário, respondia diretamente ao
que era preciso fazer para passar-se de um "sonho” à sua concretização.
Ora, aí temos uma complexa situação histórica. A simplificação e o reducionismo
determinista existiram se se ignorasse a convergência de várias condições e de
diversos fatores, imediatos ou remotos, e a função catalisadora de uma
personalidade invulgar.
Ao
iniciar a redação desse livro, Lênin já era uma figura de relevo no marxismo
russo. Ainda não rompera com os principais teóricos contemporâneos e mal
começara a experimentar suas limitações
no campo da ação revolucionária. De outro lado, através da II Internacional, de
sua participação interna e externa na reelaboração da teoria socialista e na
crítica do reformismo ou do oportunismo, infundira à sua própria posição uma
intransigência marcante, um radicalismo maduro e um espírito prático à toda a
prova. Não era um “publicista", apenas, era um político experiente e um
revolucionário que sonhava com a revolução procurando como encravá-la no seio
de um regime odiado e destrutivo. Como ativista, já tinha demonstrado seu
potencial como agitador e sua firmeza diante da repressão (uma, repressão
desconhecida na Europa, mesmo nas piores circunstâncias). Como teórico, já
havia comprovado que ultrapassara o período da aprendizagem: O Desenvolvimento
do Capitalismo na Rússia (publicado em 1899) dissocia a teoria da análise, mas
atesta, por isso mesmo, o quanto Lênin dominava as doutrinas econômicas de Marx
e o quanto, por sua vez, era capaz de interpretar segundo critérios marxistas
rigorosos uma realidade histórica diferente, de modo original, independente e
construtivo. Na verdade, ele irradiara o seu talento crítico na direção dos
múltiplos temas do debate político socialista, imperante dentro da Rússia, e
evidenciara um avanço teórico relativo comparável ao nível que prevalecia no
Exterior, no movimento socialista mundial. No sentido em que os franceses usam
a expressão, ele era uma "personalidade política" reconhecida e
impunha-se como uma influência pessoal com a qual se devia contar - e que
deveria crescer. A criação da revista Iskra, destinada à discussão política e
científica, e do jornal operário Zaria, que se voltava para toda a Rússia,
sugere que essa personalidade marcante encontrara um quadro histórico e outros
companheiros - em suma, que o movimento socialista na Rússia, apesar das
aparências, estava saltando acima do movimento socialista na Europa,
especialmente na esfera da ação política direta, de levar a revolução
socialista do plano das idéias e das aspirações para o plano prático.
As
reflexões contidas
Quanto ao segundo tema, está na moda uma visão crítica negativista do
leninismo". O leitor verá que uma boa parte desse ataque grosseiro (como
certa parte das condenações refinadas), eclodiu contemporaneamente: Que Fazer?
aparece como uma necessidade de desvencilhar o socialismo revolucionário desse
terrível cipoal, continuamente reconstituído por tantas forças contraditórias.
Não pretendo travar um combate de
cavaleiro andante contra a falta de imaginação. Contudo, convém que o leitor
fique atento e compare: como Lênin ridiculariza seus críticos (e os críticos do
marxismo); e como ele refuta ou afasta tantas suspeitas com referência à
"profissionalização" da atividade revolucionária e à organização do
movimento socialista revolucionário. De um lado, temos forças
contra-revolucionárias ou conservadoras não só organizadas econômica e,
socialmente - contando também com a centralização política, proveniente da
existência e do controle do Estado. De outro, a "anti-ordem"
desordenada, fiel a fórmulas ideais e abstratas que não são, bastante fortes,
por si mesmas, para levar de vencida o tzarismo. Se avançarmos diretamente na
linha profunda do pensamento de Lênin: ele propõe nada mais nada menos que a
alternativa do anti-Estado, a organização de um Estado dentro de outro Estado,
ou seja, a organização da revolução. De um golpe, ele supera as várias soluções
do radicalismo burguês e do socialismo reformista e os imponderáveis do
terrorismo. Para muitos, aí não haveria novidade. A novidade, estaria apenas na
russificação do marxismo, na "bolchevização", que eliminaria do
marxismo a sua vinculação espontânea com as massas e seu teor democrático. Ora,
chegar a essas conclusões por efeito da propaganda conservadora e
contra-revolucionária é explicável. Mantê-las, depois de ler Que Fazer?,
significa uma obliteração da razão socialista (se esta existe, de fato). O que
Lênin faz com o marxismo só pode ser definido de uma maneira: ele converte o
marxismo em processo revolucionário real. Se o faz tendo em vista as condições
políticas do tzarismo e da sociedade russa, disso ele não se poderia livrar...
Portanto, Lênin inaugura uma concepção do marxismo: a que rompe frontalmente
com o elemento burguês em todos os sentidos, ainda dentro e contra a sociedade
capitalista. Os grande teóricos do socialismo revolucionário europeu esperavam
a vitória da revolução para extirpar a condição burguesa que impregnasse a
todos os revolucionários, dos militantes de base ao tope da vanguarda, o que
significa que a massa de seguidores poderia oscilar livremente, das opções
socialistas às opções democrático-burguesas. O combate dos "métodos
artesanais” significa acabar com isso na medida do possível. O que fica de
“entranhadamente burguês” em um militante submetido a um treinamento
profissional e para atuar clandestinamente? Depois que um partido
revolucionário aceita tal evolução, ele tem condições para dar uma volta atrás,
procedendo como os socialistas alemães, franceses ou ingleses que traíram o
socialismo para não traírem seus governos nacionais? De outro lado, um partido
revolucionário que organiza a revolução deixa de vincular-se à oscilação das,
massas populares, de aproveitar produtivamente sua espontaneidade? Ele perde,
por isso, seu caráter democrático? De onde vem a estrutura revolucionária e
democrática de um partido socialista e da revolução socialista: da ordem que
ambos combatem e devem destruir ou dos princípios fundamentais do socialismo?
Por aí se verifica que Lênin converteu o marxismo em uma realidade política
antes mesmo que o regime tzarista se desagregasse e ocorresse a revolução
proletária. Os que se apegaram demais às condições "democráticas" da
ordem existente e pretendiam avançar suavemente, cultivando o oportunismo, o
reformismo, o gradualismo, o obreirismo, o populismo ou, no outro extremo, a
violência episódica sem uma estrutura e continuidade políticas não podiam
entender a sua linguagem. Pareciam-lhes que a passagem para o socialismo
perdia, desse modo, todo o encanto pequeno-burguês e toda a atração heróica.
Uma revolução que se organiza politicamente, que centraliza suas forças, surge,
como um anti-Estado, sob a aparência de uma "militarização", de um
despotismo dissimulado sob o centralismo democrático.
Essa
"leitura" dê Lênin é a de todos os que se identificam com o
socialismo como uma fonte de compensação psicológica ou moral. Depois que a
burguesia se converteu em classe dominante reacionária ou contra-revolucionária,
na Europa e nos Estados Unidos, que utilizou exemplarmente o que Engels
descreveu como o "terrorismo burguês", não existia outro caminho para
chegar não “ao poder", mas à construção de uma sociedade socialista. O que
dizer da Rússia? Lênin aponta com sagacidade as diferenças: o que um regime
ultra-opressivo deixa como espaço político "democrático" para as
reivindicações do Povo, das classes trabalhadoras, dos movimentos
radical-democráticos ou socialistas. Um espaço zero. O teórico socialista se
defronta com a necessidade de partir desse espaço zero: criar a revolução a
partir de dentro da contra-revolução. Ou seja, o combate organizado à
contra-revolução institucionalizada e estabilizada politicamente deve ser,
desde o inicio, um processo revolucionário. Daí as frases famosas deste livro:
“Sem teoria revolucionária, não existe movimento revolucionário”; "toda a vida política é uma cadeia sem
fim composta de um número infinito de elos”; “é preciso sonhar" etc. A
contraparte dessas frases famosas: sem organização não se mede a força de um
movimento revolucionário e sem movimento revolucionário não se testa a teoria
revolucionária. Lênin completa o marxismo. Introduz a dialética na esfera da
ação política direta e do movimento de massas pelo socialismo.
Quanto ao terceiro ponto, Que Fazer? é um divisor de águas. Escrito e
publicado no alvor do século XX, ele sintetiza os avanços do socialismo e do
marxismo na Rússia no século anterior e assinala as promessas revolucionárias
realmente fundadas. O livro todo constitui uma polêmica com o passado, com os
contemporâneos, com os que se voltavam para a construção de uma Rússia
democrática ou socialista. Onde se escreve um livro como esse, no momento
em que um livro como esse pode ser
publicado, a partir do combate ou da aceitação das idéias contidas em um livro
como esse, pode-se constatar a existência de um movimento revolucionário denso,
inquieto, maduro e indomável. A vitalidade do movimento socialista não nasce de
si mesmo, apenas,. nasce da sociedade em que se constitui e na qual se expande.
O requisito histórico e o patamar de um movimento dessa envergadura é a
existência de uma sociedade que caminha inexoravelmente, pelas pressões de
baixo para cima, pela insatisfação das massas e pelo inconformismo das classes
trabalhadoras, na direção da desagregação da ordem existente e da revolução
social. Nesses quadros históricos há um socialismo potencial (diria, mesmo, um
socialismo revolucionário potencial). O marxismo como teoria e como praxis pode
ser facilmente irradiado nas várias direções da sociedade: as tarefas dos
militantes, dos "teóricos" e "publicistas" nem por isso é
mais fácil. Porque essa potencialidade traz consigo uma repressão feroz, uma
autodefesa cega e impiedosa. Contudo, a violência institucional da
contra-revolução não consolida a si própria. Ela fortalece as forças
antagônicas, os inimigos da opressão e da contra- revolução, ou seja, em um
primeiro momento, a revolução democrática de base popular, em outro momento
seguinte, o controle do Estado pelas forças da revolução democrática, e a
transição para o socialismo. Em resumo, se não existissem peixes nos rios e no
mar seria impossível pescar. O movimento socialista exige um mínimo de
condições “objetivas" e “subjetivas" (e o mesmo se pode dizer da
revolução socialista).
Dadas
certas dessas condições, o que depende dos próprios socialistas para que o seu
movimento se consolide, se irradie e, através das massas populares e das
classes trabalhadoras, se converta em força política revolucionária?
Excluindo-se Cuba, a experiência chilena e algumas manifestações
verdadeiramente políticas da guerrilha, a América Latina foi o paraíso da
contra-revolução (da contra-revolução mais elementar e odiosa, a que impede até
a implantação de uma democracia-burguesa autêntica). Hoje, mais do que nunca,
ela continua a ser o paraíso da contra-revolução, só que, agora, conjugando o
"terrorismo burguês interno" com o "terrorismo burguês externo”,
Os partidos que deveriam ser revolucionários (anarquistas, socialistas ou
comunistas), devotaram-se à causa da consolidação da ordem, na esperança de
que, dado o primeiro passo democrático, ter-se-ia uma situação histórica
distinta. Em suma, bateram-se pela democracia-burguesa, como se fossem os
campeões da liberdade. Trata-se de uma avaliação dura? Quanto tempo as
burguesias nacionais ter-se-iam agüentado no poder se fossem atacadas de modo
direto, organizado e eficiente? Ou estamos sujeitos a uma "fatalidade
histórica", que prolonga o período colonial e a tirania colonizadora
depois da independência e da expansão do Estado nacional? O diagnóstico
correto, embora terrível para todos nós, é que nunca fizemos o que deveríamos
ter feito. Os “revolucionários" quiseram manter seus privilégios, ou os
seus meio-privilégios, sintonizando-se com as elites no poder e com as classes
dominantes. Formaram a sua ala radical, sempre pronta a esclarecer os donos do
poder sobre o que certas reformas implicariam, para evitar uma aceleração da
desagregação da ordem e os seus efeitos imprevisíveis...
Não estou inventando. Voltamos as costas à
organização da revolução e auxiliamos a contra-revolução, uns mais outros
menos, uns conscientemente, outros sem ter consciência disso. E a
"massa" da esquerda tem os olhos fitos no desfrute das vantagens do
status de classe média. O que ameaça esse status entra em conflito com o
socialismo democrático...
Todas
essas reflexões pungentes precisam ser feitas e refeitas. Que Fazer? desvenda
essa realidade incômoda. Não fomos fascinados pelo “espontaneísmo" das
massas: estas exerceram pouca atração sobre o pensamento político propriamente
revolucionário, sempre preso a fórmulas importadas de fora, com freqüência
fórmulas com alta infeção burguesa (para usar outra expressão de Lênin). Fomos
paralisados pela idéia do gradualismo democrático-burguês e pelo poder de
coação da ordem. O que quer dizer que, na era da polivalência no "campo
socialista", ainda não sabemos quais são os caminhos que nos levarão à
desagregação do nosso capitalismo selvagem e a soluções socialistas apropriadas
à presente situação histórica. Um atraso monumental. O que Lênin fez, por
exemplo,
Essas
ponderações podem parecer exageradas. A partir do Brasil? O país que ficou no
maior atraso dentro do movimento sindical, socialista e revolucionário na
América Latina? Na época
São Paulo, 19-20 de março de 1978
Florestan Fernandes
PREFÁCIO
De
acordo com a intenção original do autor, este trabalho que apresentamos ao
leitor devia ser dedicado ao desenvolvimento detalhado das idéias expostas no
artigo "Por Onde Começar?" (Iskra, n.º 4, maio de 1901). Antes de tudo, devemos
desculpar-nos perante o leitor pelo
atraso verificado no cumprimento da promessa feita nesse artigo (e repetida em
resposta a numerosas perguntas e cartas particulares). Uma das razões desse
atraso foi a tentativa de unificação de todas as organizações
sociais-democratas no estrangeiro, empreendida em junho do ano passado (1901).
Seria natural que se aguardasse os resultados dessa tentativa, pois, se tivesse
êxito, talvez fosse preciso expor sob um ângulo um pouco diferente os pontos de
vista do Iskra em matéria de organização; em todo o caso, o êxito de tal
tentativa teria permitido pôr termo, de modo bastante rápido, à existência de
duas tendências na social-democracia russa. Como o leitor não ignora, essa
tentativa fracassou e, como procuraremos demonstrar mais adiante, não poderia
ter outro fim após a mudança
inesperada do Rabótcheie Dielo, em seu número
10, em direção ao “economismo”. Tornou-se absolutamente necessário empreender
uma luta decisiva contra esta tendência vaga e pouco determinada, porém tanto
mais persistente e suscetível de renascer sob as mais variadas formas. Desse
modo, o plano inicial deste trabalho foi modificado e consideravelmente
ampliado.
O
tema principal deveria abranger as três questões propostas no artigo "Por
Onde Começar?", ou seja: o caráter e o conteúdo essencial de nossa
agitação política; nossas tarefas de organização, o plano para a construção de
uma organização de combate para toda a Rússia dirigido simultaneamente para
diversos fins. Desde há muito tais problemas vêm interessando ao autor, que já
procurou abordá-los na Rabótchaia Gazeta, em uma das tentativas malogradas de
se renovar essa publicação (ver cap. V). Contudo, minha intenção inicial de me limitar,
neste trabalho, somente à análise dessas três questões e de expor meus pontos
de vista, sempre que possível, de forma positiva evitando recorrer à polêmica,
tornou-se completamente impraticável por duas razões. Por um lado, o
"economismo" revelou-se muito mais forte do que os supúnhamos
(empregamos o termo "economismo” em sentido amplo, como foi explicado no
artigo do, Iskra, n.º. 12, dezembro de 1901: “Uma Conversa com os Defensores do
Economismo”, artigo que traça por assim dizer, o esboço do trabalho que
apresentamos ao leitor). Hoje é inegável que as diferentes opiniões a respeito
desses três problemas explicam-se muito mais pela oposição radical das duas
tendências na social-democracia russa, do, que pelas divergências quanto a
detalhes. Por outro lado, a perplexidade suscitada entre os “economistas"
pela exposição metódica de nossos pontos de vista no Iskra evidenciou que,
freqüentemente, falamos línguas literalmente diferentes: que, por conseguinte,
não podemos chegar a qualquer acordo se não começarmos ab ovo; que é necessário
tentar .Uma explicação metódica tão popular quanto possível, ilustrada com
exemplos concretos muito numerosos, com todos os "economistas", sobre
todos os pontos capitais de nossas divergências. E resolvi tentar tal
"explicação”, compreendendo perfeitamente que ela aumentaria
consideravelmente as dimensões deste trabalho e retardaria seu aparecimento,
mas não encontrei outro meio de cumprir a promessa feita no artigo “Por Onde
Começar?". As desculpas por esse atraso, é necessário acrescentar outras
quanto à extrema insuficiência da forma literária deste trabalho: tive de
trabalhar com a maior das pressas e, ademais, foi interrompido freqüentemente
por toda a sorte de outros trabalhos.
A
análise das três questões indicadas anteriormente continua a ser o objeto deste
trabalho, mas tive de começar por duas outras questões de ordem mais geral: por
que uma palavra de ordem tão "inofensiva" e “natural" como
"liberdade de crítica” constitui para nós um verdadeiro grito de guerra?
Por que, não podemos chegar a um acordo nem sequer sobre a questão fundamental
do papel da social-democracia, em relação ao movimento espontâneo das massas?
Além disso, a exposição dos meus pontos de vista sobre o caráter e o conteúdo
da agitação política visa a explicar a diferença entre a política sindical e a
política social-democrata, e a exposição dos meus pontos de vista sobre as
tarefas de organização visa a explicar a diferença entre os métodos artesanais
de trabalho, que satisfazem os "economistas", e a organização dos
revolucionários que consideramos indispensável. Em seguida, insisto mais uma
vez sobre o "plano" de um jornal político para toda a Rússia, pois as
objeções que têm sido feitas a esse respeito são inconsistentes e não respondem
à natureza da questão proposta no artigo "Por Onde Começar?": como
poderemos empreender, simultaneamente e por todos os lados, a formação da
organização de que necessitamos? Enfim, na última parte do trabalho espero
demonstrar que fizemos tudo o que dependia de nós para evitar a ruptura
definitiva com os "economistas", ruptura que, entretanto, tornou-se
inevitável; que o Robótcheie Dielo adquiriu uma importância especial,
"histórica", se quiserem, porque exprimiu da maneira mais completa e
com maior relevo, não o "economismo" conseqüente,. mas a dispersão e
as incertezas que constituíram o traço peculiar de todo um período da história
da social-democracia russa; que, por conseguinte, apesar de parecer bastante
desenvolvida à primeira vista, a polêmica com o Rabótcheie Dielo tem sua razão
de ser, pois não podemos seguir adiante sem, liquidar definitivamente esse
período.
fevereiro de 1902. N. Lênin
I - DOGMÁTISMO E LIBERDADE DE CRÍTICA
a) QUE SIGNIFICA
A “LIBERDADE DE CRÍTICA”?
"Liberdade de crítica” é, sem dúvida alguma, a palavra de ordem,
mais em voga atualmente, aquela que aparece com mais freqüência nas discussões
entre socialistas e democratas de todos os países. A primeira vista, nada
parece mais estranho do que ver um dos contraditores exigir solenemente a
liberdade de crítica. Acaso nos partidos avançados ergueram-se vozes contra a
lei constitucional que. na maioria dos países europeus, garante a liberdade da
ciência e da investigação científica? “Há algo escondido” dirá necessariamente
todo homem imparcial que ouviu essa palavra de ordem em moda, repetida em todos
os cantos, porém ainda não aprendeu o sentido do desacordo. ”Essa palavra de
ordem é, evidentemente. uma daquelas pequenas palavras convencionais que, como
os apelidos são consagrados pelo uso e tornam-se quase nomes comuns”. De fato,
não constitui mistério para ninguém que, na social-democracia internacional de
hoje, se tenham formado duas tendências, cuja luta ora “se anima e se inflama,
ora se extingue sob as cinzas das grandiosas resoluções de tréguas”. Em que
consiste a “nova tendência que "critica” o "velho” marxismo
"dogmático", disse-o Bernstein, e demonstrou-o Millerand com
suficiente clareza.
A
social-democracia deve transformar-se de partido da revolução social em partido
democrático de reformas sociais. Essa reivindicação política, foi cercada por
Bernstein com toda uma bateria de "novos" argumentos e considerações
muito harmoniosamente orquestrados. Nega ele a possibilidade de se conferir
fundamento científico ao socialismo e de se provar, do ponto de vista da
concepção materialista da história, sua necessidade e sua inevitabilidade, nega
a miséria crescente, a proletarização e o agravamento das contradições
capitalistas; declara inconsistente a própria concepção do "objetivo
final", e rejeita categoricamente a idéia da ditadura do proletariado;
nega a oposição de princípios entre o liberalismo e o socialismo, nega a teoria
da luta de classes, considerando-a inaplicável a uma sociedade estritamente
democrática, administrada segundo a vontade da maioria etc.
Assim, a exigência de uma mudança decisiva - da social-democracia
revolucionária para o reformismo social burguês - foi acompanhada de
reviravolta não menos decisiva em direção à crítica burguesa de todas as idéias
fundamentais do marxismo. E como essa crítica, de há muito, era dirigida contra
o marxismo do alto da tribuna política e da cátedra universitária, em uma
quantidade de publicações e em uma série de tratados científicos: como, há
dezenas de anos, era inculcada sistematicamente à jovem geração das classes
instruídas, não é de se surpreender que a "nova” tendência "crítica”
na social-democracia tenha surgido repentinamente sob sua forma definitiva, tal
como Minerva da cabeça de Júpiter. Em seu conteúdo, essa tendência não teve de
se desenvolver e de se formar; foi transplantada diretamente da literatura
burguesa para a literatura socialista.
Prossigamos. Se a crítica teórica de Bernstein e suas ambições políticas
permaneciam ainda obscuras para alguns, os franceses tiveram o cuidado de fazer
uma demonstração prática, do "novo método". Ainda desta vez a França
justificou sua velha reputação de "país em cuja história a luta de
classes, mais do que em qualquer outro, foi resolutamente conduzida até o
fim" (Engels, trecho do prefácio ao Der 18 Brumaire de Marx). Ao invés de
teorizar, os socialistas franceses agiram deliberadamente; as condições
políticas da França, mais desenvolvidas no sentido democrático, permitiram-lhes
passar imediatamente ao "bernsteinismo prático” com todas as suas
conseqüências. Millerand deu um exemplo brilhante desse bernsteinismo prático;
também, com que empenho Bernstein e Volimar apressaram-se em defender e louvar
Millerand! De fato, se a social-democracia não constitui, no fundo, senão um
partido de reformas e deve ter a coragem de reconhecê-lo abertamente, o
socialismo não somente tem o direito de entrar em um ministério burguês, como
também deve mesmo aspirar sempre a isso. Se a democracia significa, no fundo, a
supressão da dominação de classe, por que um ministro socialista não seduziria
o mundo burguês com discursos sobre a colaboração das classes? Por que não
conservaria ele sua pasta, mesmo após os assassínios de operários por policiais
terem demonstrado pela centésima e pela milésima vez o verdadeiro caráter da
colaboração democrática das classes? Por que não facilitaria pessoalmente o
czar a quem os socialistas franceses não chamavam senão de knouteur, pendeur et
déportateur? E para contrabalançar esse interminável aviltamento e
autoflagelação do socialismo perante o mundo inteiro, essa perversão da
consciência socialista das massas operárias
- única base que nos pode assegurar a vitória -, são nos oferecidos os
projetos grandiloqüentes de reformas insignificantes, insignificantes ao ponto
de se poder ter obtido mais dos governos burgueses!
Aqueles que não fecham os olhos, deliberadamente, não podem deixar de
ver que a nova tendência “crítica” no socialismo nada mais é que uma nova
variedade do oportunismo. E se tais pessoas forem julgadas, não a partir do
brilhante uniforme que vestiram, nem tampouco do título pomposo que se
atribuíram, mas a partir de sua maneira de agir e das idéias que realmente
divulgam, tornar-se-á claro que “a liberdade de crítica" é a liberdade da tendência
oportunista na social-democracia, a liberdade de transformar esta em um partido
democrático de reformas, a liberdade de implantar no socialismo as idéias
burguesas e os elementos burgueses.
A liberdade é uma grande palavra, mas foi sob a
bandeira da liberdade da indústria que foram empreendidas as piores guerras de
pilhagem, foi sob a bandeira da liberdade do trabalho, que os trabalhadores
foram espoliados. A expressão “liberdade de crítica”, tal como se emprega hoje,
encerra a mesma falsidade. As pessoas verdadeiramente convencidas de terem
feito progredir a ciência não reclamariam, para as novas concepções, a
liberdade de existir ao lado das antigas, mas a substituição destas por
aquelas. Portanto, os gritos atuais de "Viva a liberdade de crítica!”
lembram muito a fábula do tonel vazio.
Pequeno grupo compacto, seguimos por uma estrada escarpada e difícil,
segurando-nos fortemente pela mão. De todos os lados, estamos cercados de
inimigos, e é preciso marchar quase constantemente debaixo de fogo. Estamos
unidos por uma decisão livremente tomada, precisamente a fim de combater o
inimigo e não cair no pântano ao lado, cujos habitantes desde o início nos
culpam de termos formado um grupo à parte, e preferido o caminho da luta ao
caminho da conciliação. Alguns dos nossos gritam: Vamos para o pântano! E
quando lhes mostramos a vergonha de tal ato, replicam: Como vocês são
atrasados! Não se envergonham de nos negar a liberdade de convidá-los a seguir
um caminho melhor! Sim, senhores, são livres não somente para convidar, mas de
ir para onde bem lhes aprouver, até para o pântano; achamos, inclusive, que seu
lugar verdadeiro é precisamente no pântano, e, na medida de nossas forças,
estamos prontos a ajudá-los a transportar para lá os seus lares. Porém, nesse
caso, larguem-nos a mão, não nos agarrem e não manchem a grande palavra
liberdade, porque também nós somos “livres” para ir aonde nos aprouver, livres
para combater não só o pântano, como também aqueles que para lá se dirigem!
______________________
* A propósito. É um fato quase único na
história do socialismo moderno e extremamente consolador no seu gênero; pela
primeira vez uma disputa entre tendências diferentes no seio do socialismo
ultrapassa o quadro nacional para se tornar internacional. Anteriormente, as
discussões entre lassalianos e eisenachianos, entre guesdistas e possibilistas,
entre fabianos e sociais-democratas, entre norodovoltsy e sociais-democratas
eram puramente nacionais, refletiam particularidades puramente nacionais,
desenrolavam-se, por assim dizer, em planos diferentes. Atualmente (isto
aparece, hoje, claramente) os fabianos ingleses, os ministerialistas franceses,
os bernsteinianos alemães, os críticos russos formam todos uma única família,
elogiam-se mutuamente, aprendem uns com os outros, e conduzem campanha comum
contra o marxismo “dogmático”. Será que nessa primeira amálgama verdadeiramente
internacional com o oportunismo socialista. a social-democracia revolucionária
internacional fortalecer-se-á suficientemente para acabar com a reação política
que há tanto tempo prejudica a Europa?
b) OS NOVOS DEFENSORES DA "LIBERDADE DE
CRÍTICA"
É
esta palavra de ordem (“liberdade de crítica”) que o Rabótcheie Dielo (n.º 10),
órgão da "União dos Sociais-Democratas Russos" no estrangeiro,
formulou solenemente nesses últimos tempos, não como postulado teórico, mas
como reivindicação política, corno resposta à questão: “É possível a união das
organizações sociais-democratas funcionando no estrangeiro?" - "Para
uma união sólida, a liberdade de crítica é indispensável" (p. 36).
Daqui, duas conclusões bastante precisas são extraídas: 1ª) o Rabótcheie
Dielo assume a defesa da tendência oportunista na social-democracia
internacional, em geral; 2ª) o Rabótcheie Dielo reclama a liberdade de
oportunismo na social-dernocracia russa. Examinemos estas conclusões.
O que
desagrada "acima de tudo” ao Rabótcheie Dielo, é a "tendência que têm
o Iskra e a Zaria de prognosticar a ruptura entre a Montanha e a Gironda da
social-democracia internacional”.*1
“Falar de uma Montanha e de uma Gironda nos escalões da
social-democracia, escreve o redator-chefe do Rabótcheie Dielo, B. Kritchévski,
parece-nos uma analogia histórica superficial, singular na pena de um marxista:
a Montanha e a Gironda não representavam temperamentos ou correntes
intelectuais diversas como poderá parecer aos historiadores ideólogos, mas
classes ou camadas diversas: de um lado, a média burguesia, de outro, a
pequeno-burguesia e o proletariado. Ora, no movimento socialista contemporâneo,
não existe coalizão de interesses de classe; em todas (sublinhado por
Kritchévski) as suas variedades, aí compreendidos os bernsteinianos mais
declarados, o movimento coloca-se inteiramente no campo dos interesses da
classe do proletariado, da luta de classe do proletariado para sua emancipação
política e econômica”(p. 32-33).
Afirmação ousada! Ignora B. Kritchévski o fato, há muito observado, de
que foi precisamente a grande participação da camada de "acadêmicos",
no movimento socialista dos últimos anos, que assegurou a rápida difusão do
bernsteinismo? E, ainda mais, em que fundamenta o autor sua opinião para
declarar que os "bernsteinianos mais declarados” colocam-se, também eles,
no campo da luta de classe para a emancipação política e econômica do
proletariado? Não seria possível dizê-lo. Esta defesa resoluta dos
bernsteinianos mais declarados não encontra nenhum argumento, nenhuma razão
para apoiá-la. Mas, o que de mais "superficial” pode haver do que esta
maneira de julgar toda uma tendência, a partir das próprias convicções daqueles
que a representam? O que há de mais superficial do que a moral que acompanha
esses dois tipos ou caminhos diferentes, e mesmo diametralmente opostos, do
desenvolvimento do Partido (p. 34-35 do Rabótcheie Dielo)? Observem que os sociais-democratas alemães
admitem a completa liberdade de crítica; os franceses, ao contrário, não o
fazem, e é o seu exemplo que demonstra todo o “mal da intolerância".
Respondemos que é precisamente o exemplo de B. Kritchévski aquele que
mostra haver pessoas que, intitulando-se,
por vezes marxistas, consideram a história exatamente “à maneira de
Ilováiski". Para explicar a unidade do partido alemão e a dispersão do
partido socialista francês, não há nenhuma necessidade de se buscar as
particularidades da história de um ou outro país, de se fazer comparações entre
as condições do semi-absolutismo militar e do parlamentarismo republicano, de
se examinar as conseqüências da Comuna e da lei de exceção contra os
socialistas, de se comparar a situação e o desenvolvimento econômicos, de se
levar em conta o fato de que o “crescimento ímpar da social-democracia alemã”
foi acompanhado de uma luta de vigor sem precedentes na história do socialismo,
não somente contra os erros teóricos (Mühlberger, Dühring,*2 os socialistas da
Cátedra), mas também contra os erros táticos (Lassalle) etc. etc. Tudo isto é
supérfluo! Os franceses discutem entre si, porque são intolerantes; os alemães
são unidos, porque são bons rapazes.
E,
note-se bem, através dessa incomparável profundidade de pensamento,
"recusa-se" um fato que arruina completamente a defesa dos
bernsteinianos. Colocam-se estes últimos no campo da luta de classe do
proletariado? Tal questão não pode ser definitivamente resolvida, e sem se
voltar atrás, senão pela experiência histórica. Por conseguinte, o mais
importante aqui é o exemplo da França, o único país onde os bernsteinianos
tentaram voar com suas próprias asas, com a calorosa aprovação de seus colegas
alemães (e em parte, dos oportunistas russos: cf. Rab, Dielo, n.º. 2-3, p.,
83-84). Alegar a “intransigência" dos franceses, além do valor
"histórico” de tal alegação (à maneira de Nozdrev, é simplesmente
dissimular, sob palavras acrimoniosas, fatos extremamente desagradáveis.
Aliás, não temos nenhuma intenção de abandonar os a emães a B.
Kritchévski e a outros inúmeros defensores da "liberdade de crítica".
Se os "bernsteinianos mais declarados" ainda são tolerados no partido
alemão, é unicamente na medida em que se submetem à resolução de Hanôver, que
rejeita deliberadamente as "emendas” de Bernstein, e a de Lübeck, a qual
(apesar de toda a diplomacia) contém uma advertência formal dirigida a
Bernstein. Do ponto de vista dos interesses do partido alemão, pode-se discutir
a oportunidade desta diplomacia e perguntar se, neste caso, um mau acordo vale
mais do que uma boa discussão; em uma palavra, pode-se discordar sobre este ou
aquele meio de rejeitar o bernsteinismo. mas não seria possível ignorar o fato
de o partido alemão tê-lo repudiado por duas vezes, portanto, aceitar que o
exemplo dos alemães confirma a tese de que "os bernsteinianos mais
declarados colocam-se no campo da luta de classe do proletariado para sua
emancipação econômica e política", significa que não se compreende
absolutamente nada do que se passa sob os olhos de todos.*3
E
ainda mais. O Rabótcheie Dielo, como já mostramos, apresenta à
social-democracia russa a reivindicação da “liberdade de crítica" e
defende o bernsteinismo. Aparentemente, deve ter-se convencido de que nossos
"críticos" e nossos bernsteinianos eram injustamente maltratados.
Mas, quais? Por quem, onde e quando? Por que injustamente? A esse respeito, o
Rabótcheie Dielo cala-se; nem uma só vez menciona um crítico ou um bernsteiniano
russo! Só nos resta escolher entre as duas hipóteses possíveis. Ou a parte
injustamente ofendida não é senão o próprio Rabótcheie Dielo (o que é
confirmado pelo fato de os dois artigos do n.º. 10 falarem unicamente das
ofensas infligidas pela Zaria e pelo Iskra ao Rabótcheie Dielo). Mas, daí, como
explicar o estranho fato de o Rabótcheie Dielo, que sempre negou obstinadamente
qualquer solidariedade com o bernsteinismo, não ter podido se defender senão em
favor dos “bernsteinianos mais declarados” e da liberdade de crítica? Ou,
então, foram terceiros os injustamente ofendidos. Neste caso, quais seriam,
pois, os motivos para não serem mencionados?
Assim, vemos que o Rabótcheie Dielo continua o jogo de esconde-esconde,
ao qual se dedica (como demonstraremos mais adiante) desde que existe. Ademais,
note-se esta primeira aplicação prática da famosa “liberdade de crítica".
De fato, esta liberdade logo reconduziu não somente à ausência de toda crítica,
mas também à ausência de todo julgamento independente
Portanto, tentemos nós próprios dizer, ao menos em poucas palavras, o
que não quis dizer (ou talvez não tenha sabido compreender) o Rabótcheie Dielo.
_______________
*1 A
comparação entre as duas tendências do proletariado revolucionário (tendência
revolucionária e tendência oportunista) e as duas tendências da burguesia
revolucionária do século XVIII (a tendência jacobina - a "Montanha" - e a tendência
girondina) foi feita no editorial do número 2 do Iskra (fevereiro de 1901).
Plekhânov é o autor deste artigo. Falar do “jacobinismo” na social-dernocracia
russa é ainda hoje o tema favorito dos "cadets". Dos “bezzaglavtsy”,
e dos mencheviques. Mas, como Plekânov utilizou esta noção, pela primeira vez,
contra a ala direita da social-democracia, hoje em dia prefere-se esquecer ou
silenciar sobre o fato. (Nota do autor à edição russa de 1907. N. R.).
*2
Quando Engels atacou Dühring, para quem se inclinavam muitos representantes da
social-democracia alemã, as acusações de violência, de intolerância, de falta
de camaradagem na polêmica ergueram-se contra ele, até mesmo em público, no
congresso do partido. Most e seus companheiros propuseram (no congresso de
1877) de não mais publicar no Vorwärts os artigos de Engels por “não
apresentarem interesse para a grande maioria dos leitores”; Vahlteich declarou,
de sua parte, que a inclusão desses artigos prejudicara muito o Partido; que
Dühring também prestara serviços à social-democracia: "Devemos utilizar
todo o mundo no interesse do Partido. e se os professores discutem, o Vowärts
não é arena para tais disputas”. (Vorwärts n.º. 65, 6 de junho de 1877). Como
se vê, também esse é um exemplo de defesa da “liberdade de crítica",
exemplo sobre o qual fariam bem em refletir os nossos críticos legais e
oportunistas ilegais, que tanto gostam de se referir aos alemães!
*3 É preciso notar que, sobre a
questão do bernsteinismo no Partido alemão, o Rabótcheie Dielo sempre se
contentou em relatar pura e simplesmente os fatos, "abstendo-se"
totalmente de uma apreciação própria. Ver, por exemplo, o número 2-3, p. 66,
sobre o congresso de Stuttgart: todas as divergências se dirigem para a
"tática" e se constata apenas que a grande maioria permanece fiel à
tática revolucionária anterior. Ou o número 4-5, p. 25 e seguintes, simples
repetição dos discursos no congresso de Hanôver, reproduzindo a resolução de
Bebel a exposição e a crítica de Bernstein são novamente remetidas a um “artigo
especial”. 0 curioso é que na página 33, no número 4-5, lê-se: “... Acepções,
expostas por Bebel, contam com o apoio da grande maioria do congresso”, e um
pouco mais adiante: “... David defendia as concepções de Bernstein... Em
primeiro lugar, procurava mostrar que... Bernstein e seus amigos colocavam-se,
apesar de tudo (sic) no campo da luta de classes”... Isto foi escrito em
dezembro de 1899, e, em setembro de 1901,o Rabótcheie Dieto sem dúvida já perdeu
a confiança na exatidão das afirmações de Bebel e retoma o ponto de vista de
David como o seu próprio!
c) A CRÍTICA NA RÚSSIA
No
que concerne à nossa análise, a particularidade essencial da Rússia consiste em
que o próprio começo do movimento operário espontâneo, de um lado, e a evolução
da opinião pública avançada em direção ao marxismo, de outro, foram marcados
pela combinação de elementos notadamente heterogêneos sob uma mesma bandeira
para a luta contra o inimigo comum (contra uma filosofia política e social
obsoletas). Referimo-nos à lua-de-mel do “marxismo legal", um .fenômeno de
extrema originalidade, em cuja possibilidade ninguém teria acreditado na década
de 1880, ou no início da década de 1890. Em um país autocrático, onde a imprensa
é completamente subjugada, em uma época de terrível reação política que
reprimia as menores manifestações de descontentamento e de protesto político, a
teoria do marxismo revolucionário abre repentinamente o caminho em uma
literatura submissa à censura, e esta teoria foi exposta na linguagem de Esopo,
compreensível. porém, a todos “aqueles que se interessavam”. O governo tinha se habituado a não considerar
como perigosa senão a teoria da “Norodnaia Volia” (revolucionária); e não
notava, como é comum, a sua evolução interna regozijando-se com toda crítica
dirigida contra ela. Antes de o governo se aperceber, antes de o pesado
exército de censores e policiais descobrir o novo inimigo e atirar-se sobre
ele, muito tempo se passou (muito tempo para nós, russos). Ora, durante esse
tempo, as obras marxistas foram editadas sucessivamente, foram fundados jornais
e revistas marxistas; todo o mundo literalmente tornou-se marxista; os
marxistas eram elogiados, adulados, os editores estavam entusiasmados com a
venda extremamente rápida das obras marxistas. É compreensível que entre os
marxistas principiantes, mergulhados na embriaguez do sucesso, tenha havido
mais de um “escritor envaidecido”-...
Hoje,
pode-se falar desse período tranqüilamente, como se fala do passado. Ninguém
ignora que a efêmera emergência do marxismo à superfície de nossa literatura
provém da aliança com elementos bastante moderados. No fundo, esses últimos
eram democratas burgueses, e esta conclusão (evidenciada por sua evolução
"crítica" ulterior) já se impunha a alguns à época em que a
"aliança" ainda estava intacta.*1
Mas,
assim sendo, a quem pertence a maior responsabilidade pelo "problema"
ulterior, senão aos sociais-democratas revolucionários que concluíram esta
aliança com os futuros "críticos"? Esta é a questão, seguida de uma
resposta afirmativa, que se ouve, por vezes, das pessoas que vêem as coisas de
maneira demasiado linear. Tais pessoas, porém, não têm razão alguma. Só podem
temer as alianças temporárias, mesmo com elementos inseguros, os que não
possuem confiança em si próprios. Nenhum partido político poderia existir sem
essas alianças. Ora, a união com os marxistas legais foi, de qualquer modo, a
primeira aliança, política verdadeira realizada pela social-democracia russa.
Esta aliança permitiu alcançar uma vitória surpreendentemente rápida sobre o
populismo, e assegurou a prodigiosa difusão das idéias marxistas (é verdade que
vulgarizadas). Além disso, esta aliança não foi concluída completamente sem
“condições" . Testemunha-o a compilação marxista, Documentos Sobre o
Desenvolvimento Econômico da Rússia, queimada em 1895 pela censura. Se se pode
comparar o acordo literário com os marxistas legais a uma aliança política,
pode-se comparar tal obra a um contrato político.
Evidentemente, a ruptura não se deve ao fato de os "aliados” se
terem declarado democratas burgueses. Ao contrário, os representantes dessa
última tendência constituem, para a social-democracia, aliados naturais e
desejáveis, sempre que se trate de tarefas democráticas que a situação atual da
Rússia coloca em primeiro plano. Mas, a condição necessária para tal aliança, é
que os socialistas tenham a plena possibilidade de revelar à classe operária a
oposição hostil entre os seus interesses e os da burguesia. Ora, o bernsteinismo
e a tendência "crítica" a que aderiram, em geral, os marxistas
legais, em sua maioria, removiam essa possibilidade e pervertiam a consciência
socialista, aviltando o marxismo, pregando a teoria da atenuação dos
antagonismos sociais, proclamando absurda a idéia da revolução social e da
ditadura do proletariado, reconduzindo o movimento operário e a luta de classes
a um sindicalismo estreito e à luta "realista” por reformas pequenas e
graduais. Isso eqüivalia perfeitamente à negação, para a democracia burguesa,
do direito do socialismo à independência e, por conseguinte, de seu direito à
existência; e, na prática, tendia a transformar o movimento operário, então em
seus primórdios, em apêndice do movimento liberal.
É
evidente que, nessas condições, impunha-se a ruptura. Porém, pela
particularidade original da Rússia, essa ruptura de novo consistiu em
simplesmente eliminar os sociais-democratas da literatura "legal" , a
mais acessível ao público e a mais amplamente difundida. Os “ex-marxistas", que se agruparam
"sob o signo da crítica" e obtiveram quase o monopólio da
"execução" do marxismo, aí se entrincheiraram. Os slogans,
"contra a ortodoxia" e "viva a liberdade de crítica"
(retomados agora pelo Rabótcheie Dielo) tornaram-se imediatamente palavras
O
nascimento e o desenvolvimento da ligação e da dependência recíproca, entre a
crítica legal e o "economismo" ilegal, constituem questão interessante,
que poderia servir de objeto de um artigo especial. Aqui, basta-nós assinalar a
existência incontestável dessa ligação. O famoso Credo adquiriu tão merecida
celebridade por ter formulado abertamente essa ligação, e divulgado
incidentalmente a tendência política fundamental do "economismo":
para os operários, a luta econômica (ou, mais exatamente, a luta sindical, que
abrange também a política especificamente operária); para os intelectuais
marxistas, a fusão com os liberais para a “luta" política. A atividade
sindical “no povo" foi a realização da primeira metade da tarefa; a
crítica legal, da segunda. Essa declaração era uma arma tão preciosa contra o
“economismo" que se o Credo não tivesse existido, teria sido necessário
inventá-lo.
O
Credo não foi inventado, mas publicado sem o consentimento e talvez mesmo
contra a vontade de seus autores. Em todo o caso, o autor destas linhas, que
contribuiu para trazer à luz o novo "programa",*3 teve ocasião de
ouvir lamentações e censuras pelo fato de o resumo dos pontos de vista dos
oradores, por eles esboçado, ter sido divulgado em cópias, rotulado com o nome
de Credo, e mesmo publicado na imprensa com o protesto! Se recordamos esse
episódio, é porque ele revela um traço muito curioso de nosso "economismo":
o temor à publicidade. Este é um traço do "economismo” em geral, e não
somente dos autores do Credo: Manifesta-se na Robótchaia Mysl o mais franco e
honesto adepto do "economismo", e no Rabótcheie Dielo (que se ergueu
contra a publicação de documentos “economistas” no Vademecum, e. no Comitê de
Kiev, há cerca de dois anos, não quis autorizar que se publicasse sua
"Profissão de Fé" em conjunto com a refutação*4 desta última; e
manifesta-se, também. em muitos e muitos representantes do “economismo”.
Esse
temor da crítica, que demonstram os adeptos da liberdade de crítica, não
poderia ser explicado unicamente pela astúcia (ainda que a astúcia, por vezes,
desempenhe o seu papel: não é vantajoso expor ao ataque do adversário as
tentativas ainda frágeis de uma nova tendência!). Não, a maioria dos
“economistas” com uma sinceridade absoluta vê (e pela própria essência do
"economismo” tem de fazê-lo) sem benevolência todas as discussões
teóricas, divergências de facção, grandes problemas políticos, projetos de organização
dos revolucionários etc. "Seria melhor deixar tudo isto aos estrangeiros.”
disse-me um dia um dos “economistas” bastante conseqüentes, exprimindo, assim,
esta opinião extremamente difundida (puramente sindical, mais uma vez), de que
nossa incumbência é o movimento operário, as organizações operárias internas de
nosso país, e que todo o resto é invenção dos doutrinários, uma “sobrestimação
da ideologia”, segundo a expressão dos autores da carta publicada no número 12
do Iskra, em uníssono ao número 10 do Rabótcheie Dielo.
Agora, a questão que se coloca é: dadas essas particularidades da
“crítica” e do bernsteinismo russos, qual devia ser a tarefa daqueles que,
realmente e não apenas em palavras. desejam ser adversários do oportunismo? Em
primeiro lugar, era necessário retomar o trabalho teórico que, apenas começado
à época do marxismo legal, voltara então a recair sobre os militantes ilegais,
sem esse trabalho, o crescimento normal do movimento seria impossível. Em
seguida, era necessário empreender uma luta ativa contra a “crítica” legal que
corrompia profundamente os espíritos. Enfim, era preciso combater vigorosamente
a dispersão e as flutuações do movimento prático, denunciando e refutando toda
tentativa de rebaixar, consciente ou inconscientemente, nosso programa e nossa
tática.
Sabe-se que o Rabótcheie Dielo não cumpriu nenhuma dessas tarefas, e
mais adiante analisaremos detalhadamente essa verdade bem conhecida, sob os
mais diversos ângulos. No movimento, desejamos simplesmente mostrar a
contradição flagrante que existe entre a reivindicação da “liberdade de
crítica" e as particularidades de nossa crítica nacional e o "economismo" russo. Olhem a
resolução pela qual a “União dos Sociais-Democratas Russos no Estrangeiro"
confirmou o ponto de vista do Rabótcheie Dielo:
“No
interesse do desenvolvimento ideológico ulterior da social-democracia,
reconhecemos que a liberdade de criticar a teoria social-democrata é
absolutamente necessária na literatura do partido, na medida em que esta crítica
não contradiga o caráter de classe e o caráter revolucionário desta
teoria." (Dois Congressos, p. 10).
E os
motivos que se apresentam são: a resolução "em sua primeira parte,
coincide com a resolução do congresso do Partido em Lübeck", a propósito
de Bernstein”... Na sua simplicidade, “os (membros) da União" nem sequer
notam o testimonium paupertatis (certificado de indigência) que passam a si
próprias!... "mas...., em sua segunda parte, restringe a liberdade de
crítica de forma mais estrita do que no congresso de Lübeck".
Assim, a resolução da "União” será dirigida contra os
bernsteinianos russos? Senão, seria completamente absurdo referir-se a Lübeck!. Mas, é falso que "restringe de
forma mais estrita a liberdade de crítica". Pela sua resolução de Hanôver,
os alemães rejeitaram, ponto por ponto, exatamente as emendas de Bernstein, e
na resolução de Lübeck, endereçaram uma advertência pessoal a Bernstein
mencionando-o na resolução. Entretanto, nossos imitadores "livres" não
fazem a menor alusão a uma única das manifestações da “crítica" e do
"economismo" especificamente russos. Dada esta reticência, a alusão
pura e simples ao caráter de classe e do caráter revolucionário da teoria deixa
muito mais margem a falsas interpretações, sobretudo se a "União"
recusa-se a classificar no oportunismo a "tendência dita economista"
(Dois Congressos, p. 8 § 1). Mas, dizemos isso de passagem. O importante é que
as posições dos oportunistas, em relação aos sociais-democratas revolucionários,
são diametralmente opostas na Alemanha e na Rússia. Na Alemanha, os sociais-
democratas revolucionários, como se sabe, são
favoráveis à manutenção do que existe: ao antigo programa e à antiga tática
conhecidos de todos e explicados em todos os seus detalhes pela experiência de
dezenas e dezenas de anos. Ora, os “críticos" desejam fazer modificações
e, como estão em ínfima maioria e suas tendências revisionistas são demasiado
tímidas, compreende-se os motivos por que a maioria limita-se a rejeitar
friamente sua "inovação". Na Rússia, ao contrário, críticos e
“economistas” são favoráveis à manutenção do que existe: os “críticos” desejam
que se continue a considerá-los marxistas e que se lhes assegure à
"liberdade de crítica", da qual se beneficiam sob todos os aspectos (pois,
no fundo, nunca reconheceram qualquer coesão dentro do Partido;*5 além disso,
não tínhamos um órgão do Partido universalmente reconhecido e capaz de
"limitar" a liberdade de crítica, nem sequer por um conselho); os
"economistas" desejam que os revolucionários reconheçam "os
plenos direitos do movimento no momento atual" (Rab. Dielo n.º. 10, p.
25), isto é, a "legitimidade” da existência do que existe; que os
“ideólogos não procurem desviar o movimento do caminho "determinado pela
interação recíproca dos elementos materiais e do meio material"
("carta" do número 12 do Iskra); que se reconheça como desejável a
luta, "a mesma luta que os operários podem conduzir nas circunstâncias
atuais", e como possível aquela "que eles conduzem. na realidade, no
momento presente" ("Suplemento especial da Rabótchaia Mysl”, p. 14).
Porém, para nós, sociais-democratas revolucionários, este culto do espontâneo,
isto é do que existe "no momento presente", não nos diz nada.
Exigimos que seja modificada a tática que tem prevalecido nesses últimos anos;
declaramos que "antes de nos unir, e para nos unir, devemos começar por
nos demarcar nítida e resolutamente" (anúncio da publicação do Iskra). Em
uma palavra, os alemães conformam-se ao estado atual das coisas e rejeitam as
modificações; quanto a nós, rejeitando a submissão e a resignação ao estado
atual das coisas, exigimos a modificação.
É
esta a “pequena" diferença que nossos "livres" copiadores das
resoluções alemãs não notaram!
______________
*1 Alusão ao artigo de K. Touline contra Struve,
artigo redigido com base na conferência intitulada: Influencia do Marxismo
Sobre a Literatura Burguesa.
*2 0 termo “economismo” foi utilizado entre
aspas, da mesma forma que na tradução francesa, tendo em vista a intenção do
Autor de ressaltar seu sentido irônico. (Nota da tradução brasileira).
*3
Trata-se do Protesto dos 17 contra o Credo. 0 autor dessas linhas participou da
redação desse protesto (fins de 1899). 0 protesto e o Credo foram impressos no
exterior, na primavera de 1900. Sabe-se, agora, por um artigo da Senhora
Kuskova (publicado no Byloie, creio eu) que foi ela a autora do Credo. E entre
os "economistas” dessa época, no exterior, um papel marcante foi
desempenhado por M. Prokopovitch.
*4 Pelo que sabemos, a composição
do Comitê de Kiev foi modificada posteriormente.
*5
Esta ausência de coesão verdadeira no partido e de tradição de partido
constitui, por si só, uma diferença fundamental entre a Rússia e a Alemanha,
que deveria ter posto qualquer socialista de espírito sensato em guarda contra
qualquer imitação cega. Aqui está uma amostra daquilo a que chegou a “liberdade
de crítica" na Rússia. O critico russo, M. Bulgákov, faz esta observação
ao crítico austríaco, Hertz: “Apesar de toda a independência de suas
conclusões, Hertz, quanto a esse ponto (a cooperação), permanece aparentemente
bastante ligado à opinião de seu partido e, embora em desacordo quanto aos
detalhes, não se revolve a abandonar o princípio geral” (0 Capitalismo e a
Agricultura. t. 11, p. 287). Um súdito de um Estado politicamente escravizado,
no qual 999/1000 da população estão corrompidos até a medula dos ossos pelo
servilismo político e não têm qualquer idéia sobre a honra e a coesão do
partido, repreende à altura um cidadão de um Estado constitucional, por estar
demasiado “ligado à opinião do partido”! Nada mais resta às nossas organizações
ilegais do que põe-se a redigir resoluções sobre a liberdade de crítica....
D) ENGELS E A IMPORTÂNCIA DA LUTA TEÓRICA
"O dogmatismo, o doutrinarismo", a
fossilização do Partido, castigo inevitável do estrangulamento forçado do
pensamento", tais são os inimigos contra os quais entram na arena os
campeões da "liberdade de crítica" do Rabótcheie Dielo. Apreciamos
que esta questão tenha sido colocada na ordem do dia; apenas proporíamos
completá-la com esta outra questão:
Mas, quem são os juizes?
Temos diante de nós dois prospectos de edições
literárias. O primeiro é o "programa do Rabótcheie Dielo, órgão periódico
da 'União dos Sociais-Democratas Russos’” (separata do número 1 do Rab. Dielo).
O segundo é o "anúncio da retomada das edições do grupo 'Liberação do
Trabalho’”. Todos os dois são datados de 1899, época em que a "crise do
marxismo" estava, há muito, na ordem do dia. Portanto, em vão
procuraríamos na primeira obra as indicações sobre esta questão e uma exposição
precisa da posição que pensa tomar, a esse respeito, perante o novo órgão.
Quanto ao trabalho teórico e suas tarefas essenciais à hora presente, esse
programa e seus complementos adotados; pelo Terceiro Congresso da
"União"(em 1901) nada mencionam (Dois Congressos, p. 15-18). Durante
todo esse tempo, a redação do Rabótcheie Dielo deixou de lado as questões de
teoria, apesar de essas preocuparem os sociais-democratas do mundo inteiro.
O outro prospecto, ao contrário, assinala logo
de início o descuramento do interesse pela teoria, no decurso desses últimos
anos; reclama, insistentemente, “uma atenção vigilante para o aspecto teórico
do movimento revolucionário do proletariado”, e exorta a urna “crítica
implacável das tendências anti-revolucionárias, bernsteinianas, e outras",
em nosso movimento. Os números publicados da Zaria mostram como este programa
foi aplicado.
Vê-se assim, portanto, que as grandes frases
contra a fossilização do pensamento etc. dissimulam o desinteresse e a
impotência para fazer progredir o pensamento teórico. O exemplo dos sociais
democratas russos ilustra, de uma forma particularmente notável, esse fenômeno
comum à Europa (e de há muito assinalado pelos marxistas alemães), de que a
famosa liberdade de crítica não significa a substituição de uma teoria por
outra, mas a liberdade com respeito a todo sistema coerente e refletido;
significa o ecletismo e a ausência de princípios. Quem conhece, por pouco que
seja, a situação de fato de nosso movimento não pode deixar de ver que a grande
difusão do marxismo foi acompanhada de certo abaixamento do nível teórico.
Muitas pessoas, cujo preparo era ínfimo ou nulo, aderiram ao movimento pelos
seus sucessos práticos e importância efetiva. Pode-se julgar a falta de tato
demostrada pelo Rabótcheie Dielo, pela definição de Marx, que lançou de forma
triunfante: "Cada passo avante, cada progresso real valem mais que uma
dúzia de programas". Repetir tais palavras nessa época de dissensão teórica
eqüivale a dizer à vista de um cortejo fúnebre: "Tomara que sempre tenham
algo para levar!" Além disso, essas palavras são extraídas da carta sobre
o programa de Gotha, na qual Marx condena categoricamente o ecletismo no
enunciado dos princípios. Se a união é verdadeiramente necessária, escrevia
Marx aos dirigentes do partido, façam acordos para realizar os objetivos
práticos do movimento, mas não cheguem, ao ponto de fazer comércio dos
princípios, nem façam "concessões" teóricas. Tal era o pensamento de
Marx, e eis que há entre nós pessoas que, em seu nome, procuram diminuir a
importância da teoria!
Sem teoria revolucionária, não há movimento
revolucionário. Não seria demasiado insistir sobre essa idéia em uma época,
onde o entusiasmo pelas formas mais limitadas da ação prática aparece
acompanhado pela propaganda em voga do oportunismo. Para a social-democracia
russa em particular, a teoria assume importância ainda maior por três razões
esquecidas com muita freqüência, a saber: primeiro, nosso partido apenas
começou a se constituir. a elaborar sua fisionomia, e está longe de ter acabado
com as outras tendências do pensamento revolucionário que ameaçam desviar o
movimento do caminho certo. Ao contrário, assistimos justamente nesses últimos
tempos (como Axelrod já há muito havia predito aos "economistas”) ao
recrudescimento das tendências revolucionárias não sociais-democratas. Nessas
condições, um erro "sem importância" à primeira vista pode acarretar
as mais deploráveis conseqüências, e é preciso ser míope para considerar
inoportunas ou supérfluas as controvérsias de facção e a estrita delimitação
dos matizes. Da consolidação deste ou daquele matiz pode depender o futuro da
social-democracia russa por muitos e longos anos.
Segundo, o movimento social-dernocrata é, pela
sua própria essência, internacional. Isso não significa somente que devemos
combater o chauvinismo nacional. Significa, também que um movimento iniciado em
um país jovem só pode ter êxito se assimilar a experiência dos outros países.
Ora, para tanto não é suficiente apenas conhecer essa experiência, ou
limitar-se a copiar as últimas resoluções. É preciso saber proceder à análise
crítica dessa experiência e controlá-la por si próprio. Somente quando se
constata o quanto se desenvolveu e se ramificou o movimento operário
contemporâneo, pode-se compreender a reserva de forças teóricas e de
experiência política (e revolucionária) necessárias para se realizar essa
tarefa.
Terceiro, a social-democracia russa tem tarefas
nacionais como nenhum outro partido socialista do mundo jamais o teve. Mais
adiante, falaremos das obrigações políticas e da organização que nos impõe essa
tarefa: liberar todo um povo do jugo da autocracia. No momento, apenas
indicaremos que só um partido guiado por uma teoria de vanguarda é capaz de
preencher o papel de combatente de vanguarda E para se fazer uma idéia mais
concreta do que isso significa, lembre-se o leitor dos predecessores da
social-democracia russa, tais como Herzen, Bielínski, Tchernichévski e a
brilhante pleiade de revolucionários de 1870-1880; pense na importância mundial
de que a literatura, russa atualmente se reveste; e. mas, basta!
Citaremos as observações, feitas por Engels em
1874, sobre a importância da teoria no movimento social-democrata. Engels;
reconhecia na grande luta da social-democracia não apenas duas formas (política
e econômica) - como se faz entre nós - mas três, colocando a luta teórica no
mesmo plano. Suas recomendações ao movimento operário alemão, já vigorosa
prática e politicamente, são tão instrutivas do ponto de vista dos problemas e
discussões atuais, que o leitor, esperamo-lo, não se importará que
transcrevamos o longo trecho do prefácio ao livro Der deutsche Bauernkrieg, que
há muito já se tornou uma raridade bibliográfica:
"Os operários alemães apresentam duas
vantagens essenciais sobre os demais operários da Europa. Primeiramente,
pertencem, ao povo mais teórico da Europa; além disso, conservaram o senso
teórico já quase completamente desaparecido nas classes por assim dizer
“cultivadas" da Alemanha. Sem a filosofia alemã que o precedeu,
notadamente a de Hegel, o socialismo. alemão - o único socialismo científico
que já existiu - não teria sido estabelecido. Sem o sentido teórico dos
operários, estes não teriam jamais assimilado esse socialismo científico, como
o fizeram. E o que prova esta imensa vantagem é, de um lado, a indiferença com
respeito a toda teoria, uma das causas principais do pouco progresso do
movimento operário inglês, apesar da excelente organização dos diferentes ofícios,
e, de outro lado, a perturbação e a confusão provocadas pelo proudhonismo, em
sua forma inicial, entre os franceses e os belgas, e, na sua forma
caricaturada, que lhe deu Bakunin, entre os espanhóis e os italianos.
A segunda vantagem é que os alemães integraram
tardiamente o movimento operário, tendo sido quase os últimos. Do mesmo modo
que o socialismo alemão jamais se esquecerá de que foi erigido sobre os ombros
de Saint-Simon, de Fourier de Owen, três homens que, apesar de toda a fantasia
e a utopia de suas doutrinas, encontram-se entre os maiores cérebros de todos
os tempos e se anteciparam genialmente a inumeráveis idéias, cuja exatidão
presentemente demonstramos de maneira científica, também o movimento operário
prático alemão jamais deve esquecer-se que desenvolveu sobre os ombros dos
movimentos inglês e francês, que pôde simplesmente beneficiar-se de suas
experiências adquiridas penosamente e evitar, no presente, seus erros, então na
maioria inevitáveis. Sem o passado dos sindicatos ingleses e das lutas
políticas dos franceses, sem o impulso gigantesco dado especialmente pela
Comuna de Paris, onde estaríamos nós, hoje?
É preciso reconhecer que os operários alemães
souberam aproveitar as vantagens de sua situação, com rara inteligência. Pela
primeira vez, desde que existe um movimento operário, a luta é conduzida em
suas três direções - teórica, política e econômico-prática (resistência contra
os capitalistas) - com tanto método e coesão. É neste ataque concêntrico, por
assim dizer, que reside a força invencível do movimento alemão.
De um lado, em ramo de sua posição vantajosa; de
outro, em decorrência das particularidades insulares do movimento inglês e da
violenta repressão do movimento francês, os operários alemães, no momento,
colocam-se na vanguarda da luta proletária. Não é possível prever durante
quanto tempo os acontecimentos, lhes permitirão ocupar esse posto de honra..
Mas, enquanto o ocuparem, é de se esperar que cumprirão seu dever, como convém.
Para tanto, deverão redobrar os esforços, em todos os domínios da luta e da
agitação. Os dirigentes, em particular, deverão instruir-se cada vez mais sobre
todas as questões teóricas, libertar-se cada vez mais da influência das frases
tradicionais, pertencentes às concepções obsoletas do mundo, e jamais se
esquecer que o socialismo, desde que se tornou uma ciência, exige ser tratado,
isto é, estudado, como uma ciência. A tarefa consistirá, a seguir, em difundir
com zelo cada vez maior entre as classes operárias, as concepções sempre mais
claras, assim adquiridas, e em consolidar de forma cada vez mais poderosa a
organização do partido e dos sindicatos...
... Se os operários alemães continuarem a agir
assim, não digo que marcharão à frente do movimento - não é de interesse do
movimento que os operários de uma única nação, em particular, marchem à frente
-, mas ocuparão um lugar de honra na linha de combate; e estarão armados e
prontos se provas difíceis e inesperadas, ou ainda grandes acontecimentos
exigirem deles maior coragem, decisão e ação”.
As palavras de Engels revelaram-se proféticas.
Alguns anos mais tarde, os operários alemães foram inesperadamente submetidos à
dura provação da lei de exceção contra os socialistas. E os operários alemães
encontram-se de fato suficientemente preparados para sair vitoriosos.
O proletariado russo terá de sofrer provas ainda
infinitamente mais duras, terá de combater um monstro perto do qual o da lei de
exceção, em um país constitucional, parece um pigmeu. A história nos atribui,
agora, uma tarefa imediata, a mais revolucionária de todas as tarefas imediatas
do proletariado de qualquer país. A realização dessa tarefa, a destruição do
baluarte mais poderoso, não somente da reação européia, mas também (podemos
agora dize-lo) da reação asiática, fará do proletariado russo a vanguarda do
proletariado revolucionário internacional. E temos o direito de esperar que
obteremos este título honorário merecido já pelos nossos predecessores, os
revolucionários de 1870-1880, se soubermos animar com o mesmo espírito de
decisão e a mesma energia irredutível. nosso movimento, mil vezes mais amplo e
mais profundo.
II - A ESPONTANEIDADE DAS MASSAS E 0
ESPÍRITO DA CONSCIÊNCIA DA SOCIAI-DEMOCRACIA
Dissemos que era necessário animar nosso movimento, infinitamente maior
e mais profundo que aquele de 1870-1880, com o mesmo espírito de decisão e a
mesma energia sem limites. De fato, até o presente parece que ninguém ainda
duvidara de que a força do movimento contemporâneo estivesse no despertar das
massas (e principalmente do proletariado industrial), e sua fraqueza residisse
na falta de consciência e de espírito de iniciativa dos dirigentes
revolucionários.
Nesses últimos tempos, contudo, foi feita uma descoberta espantosa, que
ameaça subverter todas as idéias adquiridas sobre este ponto. Esta descoberta é
obra do Rabótcheie Dielo que, em sua polêmica com o Iskra e a Zaria, não se
ateve a objeções particulares e tentou reconduzir o "desacordo geral” à
sua raiz mais profunda: a uma "apreciação diferente da importância relativa
do elemento espontâneo e do elemento conscientemente metódico"'. A tese de
acusação do Rabótcheie Dielo expressa o seguinte: “subestimação da importância
do elemento objetivo ou espontâneo do desenvolvimento". *1 Ao que
respondemos: se a polêmica do Iskra e da Zaria não tivesse outro resultado
senão o de levar o Rabótcheie Dielo a descobrir esse "desacordo
geral", este resultado, por si só, dar-nos-ia grande satisfação, a tal
ponto esta tese é significativa, e esclarece nitidamente o fundo das divergências
teóricas e políticas que separam, hoje, os sociais democratas russos.
Além
disso, a questão das relações entre a consciência e a espontaneidade oferece um
imenso interesse geral, e exige um estudo detalhado.
A) INÍCI0 DO IMPULSO ESPONTÂNEO
No
capítulo anterior assinalamos o entusiasmo generalizado da juventude russa
instruída pela teoria marxista, por volta de 1895. Foi também nessa mesma
época, que as greves operárias, após a famosa guerra industrial de 1896 em
Petersburgo, revestiram-se de um caráter geral. Sua extensão por toda a Rússia
atestava claramente a profundidade do movimento popular que de novo surgia, e
se falamos do "elemento espontâneo”, é certamente nesse movimento de
greves que devemos considerá-lo, antes de tudo. Mas, há espontaneidade e
espontaneidade. Houve, na Rússia, greves nas décadas de 1870 e 1880 (e mesmo na
primeira metade do século XIX), que foram acompanhadas da destruição
“espontânea” de máquinas etc. Comparadas a esses "tumultos”, as greves
após 1890 poderiam mesmo ser qualificadas de "conscientes”, tal foi o
progresso do movimento operário nesse intervalo. Isto nos mostra que o
“elemento espontâneo", no fundo, não é senão a forma embrionária do
consciente. Os tumultos primitivos já traduziam certo despertar da consciência:
os operários, perdiam sua crença costumeira na perenidade do regime que os
oprimia; começavam... não direi a compreender, mas a sentir a necessidade de
uma resistência coletiva, e rompiam deliberadamente com a submissão servil às
autoridades. Era, portanto. mais uma manifestação de desespero e de vingança
que de luta. As greves após 1890 mostram-nos melhor os lampejos de consciência:
formulam-se reivindicações precisas, procura-se prever o momento favorável,
discutem-se certos casos e exemplos de outras localidades etc. Se os tumultos
constituíam simplesmente a revolta dos oprimidos, as greves sistemáticas já
eram o embrião mas, nada além do embrião - da luta de classe. Tomadas em si
mesmas, essas greves constituíam uma luta sindical, mas não ainda social-democrata;
marcavam o despertar do antagonismo entre operários e patrões; porém, os
operários não tinham, e não podiam ter, consciência da oposição irredutível e
de seus interesses com toda a ordem política e social existente, isto é, a
consciência social-democrata. Nesse sentido, as greves após 1890, apesar do
imenso progresso que representaram em relação aos "tumultos”, continuavam
a ser um movimento essencialmente espontâneo.
Os
operários, já dissemos, não podiam ter ainda a consciência social-democrata.
Esta só podia chegar até eles a partir de fora. A história de todos os países
atesta que, pela próprias forças, a classe operária não pode chegar senão à
consciência sindical, isto é, à convicção de que é preciso unir-se em
sindicatos, conduzir a luta contra os patrões, exigir do governo essas ou
aquelas leis necessárias aos operários etc.*2 Quanto à doutrina socialista,
nasceu das teorias filosóficas, históricas, econômicas elaboradas pelos
representantes instruídos das classes proprietárias, pelos intelectuais. Os
fundadores do socialismo científico contemporâneo, Marx e Engels, pertenciam
eles próprios, pela sua situação social, aos intelectuais burgueses. Da mesma
forma, na Rússia, a doutrina teórica da social-democracia surgiu de maneira
completamente independente do crescimento espontâneo do movimento operário; foi
o resultado natural, inevitável do desenvolvimento do pensamento entre os
intelectuais revolucionários socialistas. A época de que falamos, isto é, por
volta de 1895, essa doutrina constituía não apenas o programa perfeitamente
estabelecido do grupo “Liberação do Trabalho”, mas também conquistara para si a
maioria da juventude revolucionária da Rússia.
Assim, pois, houve ao mesmo tempo um despertar espontâneo das massas
operárias, despertar para a vida consciente e para a luta consciente, e uma
juventude revolucionária que, armada da teoria social-democrata, buscava
aproximar-se dos operários. Quanto a isso, é particularmente importante
estabelecer este fato esquecido com freqüência (e relativamente pouco
conhecido), de que os primeiros sociais-democratas desse período, que se
dedicavam com ardor à agitação econômica (contando, para isso, com as
indicações verdadeiramente úteis do folheto Sobre a Agitação, à época ainda
manuscrito) longe de considerar essa agitação como sua tarefa única, atribuíam
desde o começo à social-democracia russa as grandes tarefas históricas, em
geral, e a tarefa da derrubada da autocracia,
Mas,
o que era meio mal tornou-se um mal verdadeiro, quando esta consciência começou
a se obscurecer (porém, ela era bastante viva entre os militantes dos. grupos
acima mencionados), quando surgiram pessoas - e mesmo órgãos sociais-democratas
- prontas a erigir os defeitos em virtudes, e tentando mesmo justificar
teoricamente sua idolatria, seu culto do espontâneo. É tempo de fazer o balanço
dessa tendência, caracterizada de maneira muito inexata pelo termo
“economismo”, demasiado estreito para exprimir o conteúdo.
_____________
*1 Rabótcheie Dielo n.º. 10,
setembro de 1901, p, 17 e 18.
*2 O
sindicalismo não exclui absolutamente toda “política”, como por vezes se pensa.
Os sindicatos sempre conduziram certo tipo de propaganda e certas lutas
políticas (porém, não sociais-democratas). No capítulo seguinte, exporemos a
diferença entre a política sindical e a política social-democrata.
*3 A. Vaneiev morreu em 1899, na
Sibéria Oriental, de tuberculose contraída durante sua prisão preventiva. Por
isso, julgamos possível publicar as informações no texto: respondemos por sua
autenticidade, pois provêm de pessoas que conheceram pessoal e intimamente A.
Vaneiev.
*4 “Criticando a atividade dos
sociais-democratas dos últimos anos de século XIX, o Iskra não leva em conta a
ausência, à essa época, de condições para um trabalho, que não a luta em favor
de pequenas reivindicações." Assim falam os “economistas”
B) O CULTO DO ESPONTÃNEO. A RABÓTCHAIA MYSL
Antes
de passar às manifestações literárias desse culto, assinalaremos o seguinte
fato característico (cuja fonte foi acima mencionada), que lança certa luz
sobre o nascimento e o crescimento entre os camaradas militantes de
Petersburgo, de um desacordo entre as duas futuras tendências da
social-democracia russa. No início de
O
aparecimento da Rabótchaia Mysl trouxe o "economismo" para a luz do
dia, porém tal não se deu imediatamente. É preciso ter, uma idéia concreta das
condições de trabalho e da breve existência de numerosos círculos russos (ora,
só quem passou por isso, pode ter idéia exata das coisas), para compreender
quanto teve de fortuito o sucesso ou o fracasso da nova tendência nas
diferentes cidades, e a impossibilidade, a impossibilidade absoluta em que
durante muito tempo se encontraram os partidários e os adversários dessa
"nova" tendência, de determinar se era ela realmente uma tendência
distinta ou simplesmente a expressão da falta de preparação de alguns. Assim,
os primeiros números policopiados da Rabótchaia Mysl permaneceram completamente
desconhecidos da imensa maioria dos sociais-democratas, e se agora temos a
possibilidade de nos referir ao editorial de seu primeiro número, é unicamente
porque tal editorial foi reproduzido no artigo de V.I. (Listok “Rabétnika”,
n.º. 9-10, p. 47 e seg.), que evidentemente não deixou de louvar com empenho -
com empenho inconsiderado - esse novo jornal tão nitidamente diferente dos
jornais e projetos de jornais acima citados*1. Ora, esse editorial exprime com
tanto relevo lodo o espírito da Rabótchaia Mysl e do “economismo” em geral, que
vale a pena aí nos determos.
Após
ter indicado que o braço fardado de azul não deteria jamais o progresso do
movimento operário, o editorial prossegue: " ... 0 movimento operário deve
sua vitalidade ao fato de o próprio operário enfim se encarregar de sua sorte,
arrancando-a das mãos de seus dirigentes." Esta tese fundamental é, em
seguida, desenvolvida em seus detalhes. Na realidade, os dirigentes (isto é, os
sociais-democratas organizadores da "União de Luta") foram arrancados
pela policia, por assim dizer, das mãos dos operários*2, e querem nos fazer
acreditar que os operários conduziam a luta contra os dirigentes e se
libertavam de seu jugo! Em lugar de estimular a marcha para a frente, de
consolidar a organização revolucionária e de ampliar a atividade política,
incitou-se a volta para trás, em direção à luta exclusivamente sindical.
Proclamou-se que “a base econômica do movimento está obscurecida pela tendência
a jamais esquecer o ideal político”, que o lema do movimento operário é a 1uta
pela situação econômica" (!) ou, melhor ainda, "os operários pelos
operários"; declarou-se que as caixas de greve "valem mais para o
movimento do que uma centena de outras organizações” (que se compare esta
afirmação, feita em outubro de 1897, com a disputa dos “dezembristas” com os jovens,
no inicio de 1897) etc. Frases como: é preciso colocar em primeiro plano, não a
“nata" dos operários, mas o operário “médio”, o operário das fileiras; ou
como: "O político segue sempre docilmente o econômico*3" etc. etc.,
entraram na moda e exerceram influência sobre a massa dos jovens seduzidos pelo
movimento e que, na maioria, não conheciam senão fragmentos do marxismo, tal
como era exposto legalmente.
Isto
constituiu o completo aniquilamento da consciência pela espontaneidade - pela
espontaneidade dos “sociais-democratas" que repetiam as “idéias" do
Senhor V.V., a espontaneidade dos operários seduzidos pelo argumento de que
mesmo um aumento de um copeque por rublo valia mais que todo socialismo e toda
política, de que deviam “lutar sabendo que o faziam não por remotas gerações
futuras mas por eles próprios e por seus filhos" (editorial do n.º. 1 da
Rabótchaia Mysl). As frases desse gênero foram sempre a arma preferida dos
burgueses do Ocidente que, odiando o socialismo, trabalhavam (como Hirsch, o
“social-político” alemão) para transplantar para seus países o sindicalismo
inglês, e diziam aos operários que a luta exclusivamente sindical*4 é uma luta por eles próprios e por seus
filhos, e não por remotas gerações futuras com vistas a um incerto socialismo
futuro. E agora os "V.V. da social-democracia russa" se põem a
repetir essas frases burguesas. Aqui, é importante assinalar três pontos que
nos serão de grande utilidade para a continuação de nossa análise sobre as
divergências atuais*5.
Em
primeiro lugar, o aniquilamento da consciência pela espontaneidade, de que
falamos, também se deu de maneira espontânea. Isto parece um jogo de palavras,
mas infelizmente é uma verdade amarga. O que provocou esse aniquilamento não
foi uma luta declarada entre duas concepções absolutamente opostas, nem a
vitória de uma sobre a outra, mas o desaparecimento de um número cada vez maior
de "velhos" revolucionários “colhidos" pelos policiais, e a
entrada em cena, cada vez mais freqüente, dos "jovens" "V.V. da
social-democracia russa”. Quem quer que tenha, não direi participado do
movimento russo contemporâneo, mas simplesmente respirado o seu ar, sabe
perfeitamente que esta é precisamente a situação. E se, apesar disso,
insistimos particularmente para que o leitor considere com cuidado esse fato
conhecido de todos, se para maior evidência referimo-nos, de algum modo, aos
dados sobre o Rabótcheie Dielo do primeiro período, e sobre a discussão entre
"jovens" e "velhos" no início de 1897, é porque as pessoas
que se gabam de espírito democrático” especulam sobre a ignorância desse fato
pelo grande público (ou entre os adolescentes). Mais adiante, ainda voltaremos
a esse ponto.
Em segundo lugar, desde a primeira manifestação literária do “economismo” podemos observar um fenômeno eminentemente original e extremamente característico para a compreensão de todas as divergências entre sociais-democratas da atualidade: os partidários do "movimento puramente operário", os adeptos da ligação mais estreita e mais "orgânica" (expressão do Rab. Dielo) com a luta proletária, os adversários de todos os intelectuais não operários (ainda que fossem intelectuais socialistas) foram obrigados, para defender sua posição, a recorrer aos argumentos burgueses "exclusivamente sindicais”. Isto nos mostra que, desde o princípio, a Rabótchaia Mysl começara - insistentemente - a realizar o programa do Credo. Isto mostra (o que não pode chegar a compreender o Rabótcheie Dielo), que todo culto da espontaneidade do movimento operário, toda diminuição do papel do "elemento consciente”, do papel da social-democracia significa - quer se queira ou não - um reforço da influência da ideologia burguesa sobre os operários. Todos aqueles que falam de “sobrestimação da ideologia"*6, de exagero do papel do elemento consciente *7 etc., imaginam que o movimento puramente operário é, por si próprio, capaz de elaborar, e irá elaborar para si, uma ideologia independente, com a única condição de que os operários "arranquem sua sorte das mãos de seus dirigentes". M