Se distância a possibilidade dos classista e revolucionários entrarem no PSUV



Orlando Chirino (Coordenador Nacional da UNT):Aporrea 10/04
“ Com as declarações do presidente Chávez no sábado dia 24 de março, se distancia a possibilidade de os classistas e revolucionários irem ao PSUV”

Vários temas abordou o presidente da República no sábado, dia 24 de março, no ato de lançamento do projeto PSUV. Muitos dos aspectos colocados, obriga à reflexão e o debate franco entre os militantes revolucionários. Um deles foi a autonomia das organizações sindicais, outro foi o velho dilema entre reformismo e revolução, ambos se referem ao caráter e natureza da revolução venezuelana, ao papel da classe operária e ao PSUV.
Aporrea quer contribuir como imprensa popular, para difundir as distintas posições dos fatores que têm expectativas sobre a construção do PSUV. Para isso entrevistamos o companheiro Orlando Chirino, coordenador nacional da UNT e dirigente de sua Corrente Classista, Unitária e Autônoma (C-CURA)

Aporrea: Qual é teu balanço dos debates que colocou o presidente Chávez na arrancada do processo de construção do PSUV no sábado passado 24 de março?
O. Chirino: Penso que a grande virtude das intervenções que fez o presidente Chávez nos atos realizados no sábado passado, é que permitem francamente a discussão sobre as características da revolução na Venezuela, sobre o programa do projeto do PSUV, sobre o papel dos distintos setores e sub-setores sociais nesta revolução, especialmente a classe trabalhadora, sobre os métodos de construção da organização, e em fim, sobre uma série de questões importantes que é necessário que se discutam no país, sem tapumes, com toda a franqueza.
O preocupante é que o presidente terminou fazendo o que critica. Por exemplo, criticava o canibalismo político entre as organizações de esquerda, mas terminou dizendo que todo aquele que não compartilha sua posição é contra-revolucionário. Isto me parece um grave erro, pois antes que facilitar a discussão, a fecha, e o que é pior, alimenta as tendências sectárias que o mesmo presidente diz combater.

 Aporrea: Quais são os temas que consideras importante e que geram polêmicas?
O. Chirino: Creio que há muitos temas, mas vou referir-me só a dois. Por exemplo, o Presidente diz que um grande perigo são os setores sectários reformistas. Eu também o considero assim. Mas desde meu ponto de vista, conceituo que o programa que oferece o presidente está preso a uma concepção reformista, que não coloca a ruptura definitiva com a lógica capitalista. Vou te explicar: Logo da grande ofensiva neoliberal dos anos 90, agora novamente vemos multimilionários investimentos de grandes grupos de capitalistas internacionais em setores estratégicos, na indústria petroleira, setor de minérios, na exploração de carvão, na construção de moradias e obras de infra-estrutura. Consórcios internacionais da China, Rússia e Iran, super exploram como nunca a mão de obra nacional. Eu sinceramente não creio que tenham multinacionais boas e outras más. A essência das multinacionais é a monopolização da produção e o comércio, a super exploração dos trabalhadores, o saque dos recursos naturais das nações e a ingerência política nas decisões econômicas dos países.
Este é um tema crucial sobre que tipo de modelo econômico quer se construir. O presidente mostra os investimentos os investimentos das multinacionais como um avanço, eu vejo como o início da hipoteca da revolução. Em minha opinião o primeiro passo ao socialismo é a ruptura com estas multinacionais ou consórcios econômicos. Pelo contrário, desde o governo se promove o entendimento com os grandes grupos econômicos, para mostrar está o caso da compra da CANTV e da Eletricidade de Caracas. Não há dúvida que é um avanço recuperar estas empresas para o Estado, mas os empresários ficaram tão satisfeitos que manifestaram publicamente está de acordo com o negócio que fizeram. Outra preocupação que nos surge é que o presidente disse que não se nacionalizará a SIDOR, porque, segundo ele, ali funciona um “capitalismo bom”. Como se sabe essa empresa privatizada na IV República, está nas mãos de um consórcio transnacional encabeçado por Techint da Argentina; entendemos que o presidente Chávez diz isto porque se trata de uma empresa de um país onde governa um presidente “amigo” dele, como é Kirchner. Mas então nos perguntamos –desde quando existe aqui um capitalismo bom e outro mau?
O presidente agora faz muita publicidade sobre China. Eu lhe peço com toda sinceridade que não utilize esse exemplo porque nesse país se restaurou o capitalismo há anos, e é agora o país de maior exploração da classe trabalhadora, ali existem escravos modernos, dirigidos por uma podridão de um partido que se diz comunista, mas que está entregando às multinacionais. Para o cúmulo dos males, acabam de incluir na constituição o direito a propriedade privada. Definitivamente, China não é um bom exemplo.
Outro assunto importante tem a ver com o papel das classes sociais nesta revolução.Não é necessário invocar a Carlos Marx, Frederico Engels, Lênin ou Trotsky para saber que a única maneira de inverter a equação capitalista, na qual uma minoria impõe suas decisões sobre a maioria, é que os trabalhadores e o povo que somos a maioria da população e os que produzem, cumpramos o papel de vanguarda na expropriação das empresas e assumamos o controle das mesmas. O socialismo nesse sentido é sensível.
Mas no país cada vez isso se faz mais difícil. Nem sequer agora os trabalhadores têm a possibilidade, em setores chave da economia, de pensar sequer na co-gestão, nem muito menos no controle operário, porque o governo considera que não pode haver co-gestão nas empresas estratégicas.
Os companheiros da Construtora Nacional de Válvulas, (hoje Inverval) tiveram que suportar calamidades físicas, fome e lutar como nunca, para que o governo, por fim os escutara e aceitasse a expropriação. Os operários de Venepal (hoje Invepal), suportaram mais de 10 meses para se impor sobre so capitalistas. O governo, entretanto, olhava para outro lado. Agora temos o caso dos companheiros de Sanitários Maracay que já completam 4 meses de haver tomado a empresa exigindo a estatização, e sem dúvida não está dentro das preocupações do governo a expropriação.
Nestes detalhes se aprecia que o governo não tem em seu programa, e parece que tampouco terá o PSUV, a expropriação aos capitalistas. E se isso não se faz, não avançamos a nenhum socialismo. Poderemos avançar a uma forma de capitalismo de Estado em uma perspectiva desenvolvimentista, mas não à eliminação da propriedade privada, à exploração capitalista e a apropriação  dos lucros por parte de uns poucos.

Aporrea: E sobre as apreciações que fez (o presidente) a cerca da autonomia do movimento sindical?

O. Chirino: Ah, esse sim é um tema super importante. O Presidente não pode pretender mudar a história, dizendo que os que lutamos pela autonomia das organizações sindicais, trazemos um “veneno” da IV República. È al contrário, a autonomia é o grande antídoto contra o burocratismo, e por isso se salvou a revolução em 2002 e em 2003 e caso se mantém, será a grande salvaguarda para o processo revolucionário.
A CTV hipotecou sua independência ao bi-partidarismo e seus distintos governos. Durante quarenta anos se escreveram as piores páginas na história do movimento sindical venezuelano, porque os trabalhadores fomos marionetes de adecos, copeyanos (AD e COPEI, partidos do anterior regime, social democratas e social cristãos)  e das câmaras industriais. Os venezuelanos ainda recordam que na cúpula sindical de AD se decidia o destino dos trabalhadores, se vendiam contratos e se acordava com os governos adecos manter o controle dos sindicatos e da CTV. Recordemos que o comendo contra-revolucionário durante a paralisação de sabotagem estava conformado pela dupla CTV – Fedecámaras. A razão de ser da UNT é precisamente o contrário, a luta por autonomia, porque os trabalhadores se levantaram contra a entrega, contra a submissão, contra a dependência política.
O Presidente deve recordar que nas eleições sindicais de 2001, ainda que todos sabemos que a direção da CTV orquestrou uma monumental fraude, também devemos reconhecer que muitos trabalhadores não simpatizavam com a chapa alternativa que encabeçava Aristóbulo Istúriz, pelo fato de que os trabalhadores o identificavam como o candidato do governo. O presidente tem que entender que no movimento operário e sindical há o que chamamos reflexo de classe social, níveis de consciência classista e consciência revolucionária, e pelas relações com os patrões seu comportamento é distinto ao das comunidades, aos setores camponeses ou os estudantes.
Mas o pior da afirmação do Presidente Chávez é dizer os que lutamos por autonomia cumprimos um papel contra-revolucionário. Com outros companheiros temos construído uma corrente nacional no movimento sindical que se identifica, além de lutar contra a burocracia e pelo socialismo, com o combate mais decidido na defesa da autonomia das organizações sindicais. O II Congresso da Central foi uma boa prova do que estou afirmando. Ali não havia simplesmente cinco correntes ou frações, não eram problemas pessoais de uns dirigentes com outros, que não nos queremos falar e que temos rixas pessoais. Nisso está equivocado o presidente Chávez, o que sucede é que há mais de dois anos está se dando a “mãe das batalhas” entre duas concepções: Os que querem atrelar o movimento sindical às decisões do governo, e os que queremos lutar pela soberania, a independência e a autonomia.
Temos mais de 30 anos de história no movimento sindical e não temos uma só mancha por haver capitulado em algum momento a patronal, nem a nenhum governo, nem muito menos ao imperialismo. Nem o vamos a fazer agora que o Presidente nos rotula como um “perigoso veneno quarto-republicano”, já que temos claro que não temos coincidência com a oposição golpista. Temos lutado incansavelmente no seio do movimento sindical para inculcar aos trabalhadores princípios de classe, métodos democráticos, honradez a toda prova e moral proletária. Nos orgulhamos de haver sido a primeira agrupação política, como PST – La Chispa, de haver proposto o nome de Hugo Rafael Chávez, como candidato presidencial. O Presidente recorda das reuniões e atos que impulsionamos desde a urbanização La Quizanda em Valência ou desde o setor dos têxteis em Aragua. Nós temos uma história impecával.
Estivemos na primeira fila na luta contra a CTV, promovemos a criação da FBT, e somos os mais entusiastas impulsionadores da UNT, enfretamos juntos aos mais decididos ativistas o golpe de 11 de abril e fomos artífices na recuperação da indústria petroleira durante a paralisação de sabotagem patronal. A página da vida de nossos ativistas e militantes é honrosa.
Aporrea: Mas o Presidente Chávez citou a favor de sua argumentação a grande revolucionária Rosa Luxenburgo.

O. Chirino: O Presidente tem tratado de apoiar sua posição de eliminar a autonomia em textos de Rosa  Luxemburgo, sem dúvida, o que colocou a grande revolucionária polaca deve considerar-se em seu texto político e no momento histórico específico. Quando ela falou da autonomia dos sindicatos o fazia em referência ao Partido Social-democrata alemão, e o fazia para rechaçar as tendências “sindicalistas” e burocráticas dos sindicatos. Mas eu que sou trotskysta, reconheço que o próprio Leon Trotsky se equivocou quando propôs que os sindicatos da União Soviética não deviam ser autônomos, poucos anos depois do triunfo da revolução bolchevique.
Afortunadamente Lênin participou nessa polêmica, saudando-se a favor da autonomia das organizações sindicais. Trotsky tinha argumentos muito sólidos já que eram momentos de economia de guerra, de fome, de guerra civil, de liquidação física dos melhores quadros do movimento operário e sindical, de enfrentamento contra uma sagrada aliança contra-revolucionária imperialista mundial, mas nem assim tinha razão. Provou-se que Lênin sim tinha razão. Com este exemplo também te demonstro que não somos dogmáticos, que nós estudamos a realidade, os fatos históricos e somos críticos das experiências históricas. Não por casualidade durante muitos anos os stalinistas nos rotularam como contra-revolucionários porque lutávamos por uma nova revolução que varrera da face da terra a burocracia que usurpou o poder na União Soviética.

Aporrea: Que efeitos práticos têm ou há tido esta discussão sobre a autonomia dos sindicatos?

O. Chirino: Muitos. Olha que até a data não se tenha podido fazer as eleições na UNT. O argumento dos que se opuseram no ano passado era que durante 2006 havia que dar prioridade as eleições presidenciais. Nós não estávamos contra de chamar a votar no presidente Chávez, pelo contrário, dizíamos que a melhor forma para fortalecer a campanha era que ela fosse impulsionada por uma direção legitimada. Desgraçadamente não foi assim.
Outro fato concreto é a tragédia que estão vivendo os empregados públicos e os petroleiros. Se o movimento sindical não fora autônomo e tivesse que aceitar o que diga o governo e seus funcionários, teríamos que aceitar que o contrato petroleiro o negociavam os dirigentes de Fedepetrol e as demais federações, que além de ser ilegítimos, foram parte do comando da paralisação-sabotagem patronal imperialista contra a indústria. Graças a nossa luta autônoma temos impedido semelhante barbaridade.
Outro tanto (de barbaridades) acontece com os empregados públicos. O atual ministro está empenhado em pactuar com a burocracia sindical. Uma burocracia que está ilegítima e que além, tem o problema de que é minoria. Seu poder reside em que controla o aparato e conta com o bom visto (aceitação) das instâncias do governo.
Há outra situação relacionada com a autonomia. Desde a FBT e o Ministério do Trabalho se fala de que a UNT não cumpre seu papel histórico e, que, portanto, está chamada a desaparecer. Paralelamente falam de montar estruturas paralelas e toda uma série de propostas encaminhadas a dizimar o movimento sindical. É preciso que entre os trabalhadores discutamos seria e responsavelmente estas colocações.
A autonomia do movimento sindical é o que permite, diariamente, que nós possamos expressar sem nenhum temor, sem chantagem, os erros, - horrores diria eu – que o governo está cometendo. Não pode ser que os empregados públicos levem 27 meses esperando a negociação do contrato marco. Os petroleiros, parece que vão pelo mesmo caminho. As perguntas que obrigatoriamente temos que fazer são: Vale a pena ou não lutar por autonomia? Somos contra-revolucionários porque denunciamos essas atrocidades?

Aporrea: Mas não somente se trata de autonomia sindical. Também esta é uma questão delicada com respeito ao PSUV e o governo. Os militantes do PSUV estão obrigados à solidariedade com todas as decisões do governo ou de seus funcionários? O novo partido será apêndice do governo?

O. Chirino: Imagino a um trabalhador petroleiro que jogou a vida contra os golpistas durante a paralisação-sabotagem, participando em uma reunião do PSUV onde o Ministro do Trabalho lhe diga que tem que aceitar que seu contrato coletivo seja negociado pelos golpistas... Este é o outro tema candente da discussão

Aporrea: Te sentes representado no discurso de Osvaldo Vera, que falou no ato de lançamento do PSUV como representante dos trabalhadores?

O. Chirino: Parqa nada. Não colocou nen um só tema de interesse para a classe trabalhadora. Somente falou de generalidades que de nada nos servem. Poe isso eu me pergunto: Onde?, como e quem discutiu que o deputado Vera falara em “nome da classe trabalhadora venezuelana”?
Com este interrogante quero expressar uma preocupação grande. Como se está construindo o PSUV? Onde estão tomando as decisões? Me uno a denúncia de milhares de compatriotas que chegaram até Caracas para participar do evento e foram excluídos, vexados e até maltratados. Pela televisão vimos em primeiro plano a governadores, vereadores e deputados que não são bem vistos pela população. Também havia empresários ou funcionários que defendem a empresários, e vários acusados de corrupção ou políticos anti-populares. Por isso há muito descontentamento, porque a gente intui que o processo começou distorcido.
Da parte de C-CURA pensamos que há que ser excludente desde o ponto de vista de classe. Quer dizer, não pode haver lugar para capitalistas, latifundiários, burocratas ou corruptos. Mas exclusão aos de baixo, aos que opinamos distintos ao Presidente é equivocado. Todos sabem que o deputado Vera não é representativo do movimento sindical. Eles os da FBT, são completa minoria na UNT, sem dúvida falou no ato a nome dos trabalhadores venezuelanos. Por isso nós estamos defendendo o direito que no PSUV exista liberdade de tendências, sem exclusões, sem desqualificações. A ninguém se pode obrigar a dissolução, isso é arbitrário, isso é querer matar a discussão antes de começar o debate. Queremos saber qual é a opinião do Presidente e dos integrantes do comitê promotor.

Aporrea: Que perspectiva vês apo projeto do PSUV?

O. Chirino: Não podemos subtrair importância ao fato de que a população tenha uma grande expectativa. E mais, eu diria que a gente o vê como um triunfo político sobre as cúpulas dos partidos da Quinta República porque odeia o “Me Fiz Rico”, Dinheiro Para Todos, Pedimos e todas essas organizações e personagens que se enriqueceram a custa da fome do povo.
Sem dúvida, deixa-me dizer-te que com os alinhamentos expressados pelo presidente Chaves, nos parece que se distancia a possibilidade de que os setores verdadeiramente classistas, honestos e revolucionários no movimento sindical, e que lutam pela autonomia, avancem ao PSUV.
Por isso nós queremos participar neste debate. Temos uma concepção do que deve ser um partido revolucionário na Venezuela, tão necessário para a luta por aprofundar o processo revolucionário, para arrancar-lhe o poder econômico, político, social e militar aos capitalistas. Sem dúvida, em relação ao PSUV, até agora essa perspectiva não a vemos por nenhum lado.
O importante é que o debate está aberto e todos temos que dizer com clareza o que pensamos e queremos sobre o partido que se quer construir, qual deve ser seu programa, com que método se constrói. A partir deste momento nós entramos nesse debate, vamos a fazê-lo com franqueza, com tolerância e não permitiremos que nos desprestigie porque tenhamos posições distintas às que tem o presidente ou os integrantes do Comitê Promotor. Com todo respeito, mas com toda a firmeza, vamos a fazer-lhe chegar, a dito comitê do PSUV nossa visão e perspectiva da revolução na Venezuela.

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