O crescimento dos Estados Unidos esteve vinculado a uma enorme bolha especulativa: a sobrevalorização imobiliária. Agora ela estourou deixando mortos e feridos. A crise chegou à Europa, onde um banco francês impediu a retirada de fundos aos seus clientes, ao melhor estilo do “corralito” argentino de 2001-2002. Os Bancos Centrais dos EUA, Europa, Japão, Austrália e Canadá atuam para resgatar os grandes bancos. Mas a crise continua latente.
O Terremoto das bolsas aconteceu no coração da economia ianque
Como aconteceu tantas vezes na história do capitalismo, a crise apareceu repentinamente. Já havia pequenos sinais em fevereiro e março, com quedas das bolsas mundiais.
Mas a “verdade” estava se preparando durante o mês de Julho. Inacreditavelmente, os presidentes dos bancos centrais da Europa e a Reserva Federal ianque afirmaram na quarta feira passada que “não existia nenhum problema”. Em 48 horas tiveram que engolir suas próprias afirmações. Evitaram a quebra dos grandes negócios capitalistas injetando no mercado 323 bilhões de dólares. Foi a maior intervenção desde a queda das Torres Gemes em setembro de 2001. E ainda não está claro se a situação voltará ao normal.
O que aconteceu?
O capitalismo mundial são décadas que não funciona “normalmente”. O que em teses era a norma: os investimentos se aplicavam nos setores produtivos mais modernos, para explorar os trabalhadores, obter mais valia e depois reinvestir para mais produção, e maior mais valia, não está acontecendo. Ao invés disso, existe uma enorme massa de dinheiro que vai de mercado em mercado procurando super lucros especulativos. Isso foi o que ocasionou, na década de 90, a crise mexicana, a do sudeste asiático e a russa. E assim também montaram a espetacular especulação que sustentou a conversibilidade argentina que estourou em dezembro de 2001.
Vamos relatar agora um novo capítulo, desta vez com sede nos próprios EUA que tem a sua origem em 2001. Os ianques tinham naquela época a sua própria recessão fruto do estouro da bolha especulativa das empresas ponto.com de março de 2000, mais o caos gerado após 11/09/2001. O governo Bush injetou bilhões de dólares no mercado, começando pela indústria militar. O FED ( Banco Central dos EUA) baixou para 1% os juros para reativar a economia de qualquer forma. Mas toda essa montanha de dinheiro não foi para novos investimentos tecnológicos ou industriais. Ela gerou um “boom” de créditos para o consumo, fundamentalmente imobiliário. Os preços das propriedades subiram para as nuvens. Assim começou a crescer a bolha. A economia ianque crescia ano após ano, e obviamente seus benefícios não eram para todos: continua havendo 14 milhões de ilegais perseguidos e super explorados, 40 milhões de pobres e uma imensa massa da população sem assistência social nem plano saúde. Basta lembrar que o furacão Katrina colocou à nu essa realidade em meio ao “boom” do crescimento.
O que mais crescia era o negocio das propriedades. Foram oferecidos créditos hipotecários praticamente sem apresentar nenhum papel. Por sua vez, os bancos que deviam receber esses empréstimos dos compradores, pediam por sua vez dinheiro emprestado oferecendo como fiança as hipotecas. Y colocavam esse dinheiro nos mercados especulativos, comprando ações ou bônus, ou prestando parte desse dinheiro a empresas para que comprassem outras, e assim houve uma onda de fusões e aquisições. Estas operações financeiras pronto saíram dos próprios Estados Únicos, participando desta ciranda os bancos europeus, canadenses e asiáticos.
Mas como toda bolha, estoura. Com os valores imobiliários nas nuvens, cada vez foi mais difícil achar novos compradores. Os preços das propriedades começaram a baixar. Acumularam-se novas propriedades invendáveis. Os juros começaram a crescer, e muitos que se endividaram, descobriram que os juros estavam altos de mais e o valor de sua propriedade tinha caído. Assim, tinham uma dívida enorme que não podiam pagar, por uma propriedade que valia menos da metade da sua hipoteca.
Cresciam os créditos da categoria “sub prime”, outorgados sem critério e difíceis de ser pagos. Então aconteceu a reação geral. Como explicou Paul Krugman: “a entidade financeira A não consegue vender seu título com garantia hipotecária e assim não consegue o dinheiro suficiente para pagar o que deve a B, quem não terá o dinheiro para pagar C. E os que têm dinheiro, sentam acima, porque não confiam em que alguém devolva os empréstimos, o que piora ainda mais o panorama” (12/08).
O problema é que, como toda ciranda especulativa, não sabemos até onde estão enfiados cada um dos bancos, grandes empresas, financeiras, fundos de pensão. Primeiro caiu a bolsa de Wall Street. Quando parecia que acalmava, quebrou o American Home Mortgage Investment, um banco hipotecário ianque. Mas depois se alastrou a outras instituições que não tinham nada a ver com este negócio, mas era parte da grande jogada especulativa. Assim, caíram na rede os bancos da Alemanha, até que no dia 09 de agosto o BNP Paraibas (o banco mais importante da França) anunciou que congelava 2 bilhões de dólares, impossibilitado de devolvê-los aos seus donos. Parecido ao “corralito” argentino de 2001. E aí veio o efeito dominó.
Frente a isto, os bancos centrais das potências imperialistas correram a injetar divisas para evitar uma quebra em massa. Entretanto, os abutres do sistema financeiro, na procura desesperada de recuperar dinheiro, venderam os bônus comprados nos países do terceiro mundo, para se refugiar no mais seguro, nos bônus do Tesouro Federal dos EUA.
As perspectivas
Até o momento, esse dinheiro conseguiu frear a bola de neve que levava à quebra das finanças mundiais. Mas com o custo de engrossar ainda mais a massa de fundos especulativos que circulam pelo planeta. Por tanto todos os desequilíbrios continuam presentes. Agora, os porta-vozes do sistema financeiro dirão: “a crise já passou” e inventarão novas teorias sobre a solidez da economia mundial. Mas o único concreto é que acabou o ciclo aberto desde final de 2001, de crescimento fácil da economia ianque baseado na especulação imobiliária. Não sabemos se assistiremos a um capítulo desta “crack” em dois dias, uma semana ou seis meses, mas podemos afirmar que a crise continua aberta. E vai repercutir sobre o crescimento da economia mundial. É verdade que a China e a Índia continuam produzindo muito. Mas não devemos esquecer que tudo o que produz Ásia tem como destino central o mercado norte-americano. O capitalismo continua cronicamente doente, estamos frente a um dos seus ataques agudos. Veremos quando chega o próximo. Aos trabalhadores do mundo resta a tarefa de fortalecer e continuar a luta, para evitar que mais uma crise caia sobre as suas costas.
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